Uma das características mais fortes das manifestações populares dos últimos dias têm sido a resistência e muitas vezes ataques e depredações a prédios públicos. Assim como rejeitam partidos políticos e organizações sociais, os manifestantes têm declarado sua indignação por meio de quebra-quebra e pichação contra as sedes das instituições representativas. Mas no Espírito Santo, a revolta é diferente.
A Terceira Ponte tem sido o destino de quase todas as manifestações e tem razão de ser. Talvez o movimento não tivesse essa intenção, mas intuitivamente, atingiu o ponto central de uma estrutura de poder e, pelas redes sociais, os manifestantes e seus apoiadores começam a desmontar esse sistema.
No Consórcio que administra o pedágio está o Grupo Coimex, que faz parte da ES em Ação, que ajudou a fazer o ES 2030, que é o programa de governo de Renato Casagrande, que recebeu doação de campanha da Cisa Trading, que também faz parte do consórcio da Rodosol. Um círculo vicioso que mostra que o governo do Estado está há muito tempo a serviço não só da Rodosol, mas das elites empresarias capixabas.
A certeza de que sua defesa será feita pela instituição que teleguia é tanta, que a empresa sequer se deu ao trabalho de comparecer à reunião proposta por promotores do Ministério Público do Estado. Casagrande pouco falou sobre as manifestações e, quando falou, colocou-se em uma posição de defesa da empresa.
Mas a justificativa de que o prejuízo vai ultrapassar o R$ 600 milhões, que veio só depois de haver o risco de a ponte ser estadualizada, também não convence. Assim como não convence essa história de auditoria feita pelo MPES. Depois das muitas demonstrações de atrelamento do órgão a um arranjo institucional, ninguém acredita que o resultado desse estudo vá atender às vozes das ruas.
Mesmo diante do clima tenso que se desenhava nas galerias da Assembleia, o governo do Estado ingeriu na discussão do Projeto de Decreto Legislativo, proposto por Euclério Sampaio (PDT), em uma manobra de última hora, que expôs o plenário e criou um clima de tensão, culminando com a ocupação da presidência da Assembleia.
A Terceira Ponte se tornou um marco simbólico para os manifestantes. O que leva à reflexão: no Espírito Santo, para se atingir a instituição pública, é preciso atacar a iniciativa privada.

