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Amaro repete Rodney

Para o governador Paulo Hartung (PMDB), candidato qualificado necessariamente não ganha eleição. Não fosse assim Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) não teria jogado a toalha ao ser preterido dos planos do Palácio Anchieta. O governador preferiu apostar todas as suas fichas no popular apresentador de TV Amaro Neto (SD), que literalmente caiu de paraquedas na disputa pela prefeitura da capital. 
 
Duvidando da sua própria capacidade de conquistar votos de um eleitorado mais crítico, o deputado estadual do Solidariedade sempre considerou Vitória muita areia para o seu caminhãozinho. Cogitava disputar a eleição em Cariacica por ser um município mais pobre, portanto, mais identificado com seu perfil popular explorado no programa Balanço Geral; ou mesmo Vila Velha, por considerar que o atual prefeito Rodney Miranda (DEM), com a popularidade em queda livre, seria uma presa fácil para ele.
 
Talvez Amaro não percebera naquele momento, que Rodney refletia sua imagem no futuro, tantas são as semelhanças entre ambos. Depois de uma passagem desastrosa pela Secretaria de Segurança Pública (Sesp) — período em que o Estado amargou taxas de homicídios nunca vistas —, Hartung passou a trabalhar para salvar Rodney. Decidiu prepará-lo para disputar uma cadeira na Assembleia, o que parecia para os meios políticos uma aventura despropositada. Ninguém acreditava que Rodney poderia ter votos.
 
Sem um retrospecto positivo para explorar na gestão à frente da Sesp, a saída foi criar um personagem com a ajuda da imprensa corporativa. Rodney passou a ser ironicamente identificado com o personagem vivido por Sylvester Stallone nos cinemas.  O Rambo encarnado por Rodney era afeito às ações midiáticas. Gostava de participar de operações policiais de impacto, ao melhor estilo Rambo. Para um homem que dificilmente sorri, foi fácil fazer “cara de mau”, bancar o xerifão que impõe terror aos “vagabundos” e não tem medo de nada ou de ninguém. 
 
Deu certo, o então desacreditado delegado não apenas venceria a eleição para deputado em 2010, mas seria o mais votado. Eleito, porém, Rodney mostrou-se oco politicamente. Fez um meio-mandato inexpressivo na Assembleia. Uma grande decepção para os mais de 65 mil eleitores que apostaram seus votos no Rambo, que carregava a bandeira do combate à criminalidade. 
 
Amaro nunca exerceu cargo público antes de ser eleito deputado estadual na eleição de 2014. De certa maneira, Amaro também se transformou num fenômeno midiático explorando a violência, só que na TV. No popular Balanço Geral ele exerce o papel do personagem “justiceiro”, o homem que não tem rabo preso com ninguém, que não tem travas na língua, que fala o que pensa doa a quem doer. Esse discurso que parece espontâneo é cuidadosamente trabalhado para ser facilmente absorvido pelas camadas mais humildes da sociedade, onde o apresentador, não por acaso, detém a maior fatia de audiência.
 
Foi com esse apelo que Amaro decidiu experimentar se sua popularidade poderia chegar às urnas. Uma aposta meio despretensiosa no começo. Ele mesmo, como Rodney, deve ter se surpreendido quando foi eleito o deputado estadual mais votado em 2014. Arrebatou nada mais nada menos do que 55.408 votos. E, mais umna vez como Rodney, tem passado em branco na Assembleia. Um deputado nulo. Ou alguém se lembra de algum projeto expressivo de Amaro neste ano e meio de Assembleia?
 
Mas não é isso que pesa na balanço de Hartung. À época, a votação retumbante de Rodney, que teve ainda 10 mil votos a mais que Amaro, despertou a atenção de Paulo Hartung, que percebeu que sua criação tinha fôlego para chegar mais longe. Ele tinha razão. Rodney desbancou dois medalhões da política canela-verde — Max Filho (PSDB) e Neucimar Fraga (PSD) — e se elegeu prefeito de Vila Velha na onda da mudança.
 
A vitória espetacular de Rodney deu a Hartung a certeza de que era possível “fabricar” candidatos competitivos forjados com apelo midiático. Foi a experiência com Rodney que inspirou Hartung a criar Amaro, que em termos de mídia é muito mais promissor que o prefeito de Vila Velha.
 
Hartung, que não toma decisões sem consultar as pesquisas, deve ter ficado impressionado com os resultados de Amaro. Dizem que o apresentador de TV tem subido como um foguete. Para quem elegeu um “poste” como Rodney, Hartung tinha motivos de sobra para se empolgar com o pré-candidato do Solidariedade. 
 
Se Amaro repetir Rodney, Hartung derrota o palanque dos seus dois principais rivais na capital: Luciano Rezende e Renato Casagrande. Depois é a população que paga o pato. Rodney, depois de eleito, mostrou que era um poste incapaz de ter luz própria. Os índices de popularidade do prefeito revelam que o eleitor canela-verde se arrepende de ter entregue a cidade nas mãos de Rodney . Com Amaro a escrita deve se repetir. 
 
O fenômeno midiático que está sendo maturado por Hartung em Vitória, se esconde atrás de uma embalagem reluzente, mas vazia. Se é possível aprender com erros, que os eleitores façam uma cuidadosa reflexão para não repetir em Vitória o equivoco de Vila Velha. 

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