Feitas com papel de seda, pequenas e delicadas garças azuis, dobradas com o cuidado exigido pelo origami. Depois de bem dobradas, Ana decora as asas com elaborados desenhos – flores, folhas ou ramos, anjos ou guirlandas, pássaros, peixes, nuvens. Ou apenas traços sinuosos, enroscando-se sensualmente uns nos outros, como um par romântico.
Ana cria suas aves com o mesmo cuidado com que os artesãos da Idade Média criavam os rococós que engalanavam suntuosas catedrais – para que os fiéis entendessem a beleza do paraíso. Condenamos a Igreja Católica pelos abusos e crueldades da Inquisição, ironicamente chamada de santa, mas devemos reconhecer que ela incentivou e patrocinou muitas das melhores obras de arte já criadas pelo homem. As mulheres nunca tiveram vez.
Isso pensa Ana, por nada mais ter que pensar enquanto cria as pequenas garças de papel de seda. A adição dos adornos é para realçar as exceções que até a natureza aceita. Quando prontas, Ana acrescenta sobre elas uma leve gota de perfume, para criar o toque de mistério. Completando a cota do dia – embora não haja uma quantidade específica para cada dia – Ana arranja os pequenos pássaros numa caixa, e está pronta para mais um dia em sua vida.
A garça azul é a mais clássica e popular figura do origami japonês – a arte de dobrar papéis. Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado. Por que não tentar? Missão cumprida, Ana almoça um sanduíche vegetariano, integral e orgânico, assiste ao Vale a Pena rever na TV, veste a túnica azul e sai para a tarde ensolarada ou chuvosa, com brisa amena ou vento forte – qualquer que seja a previsão meteorológica, mesmo que ilógica.
E lá vai Ana distribuindo sorrisos rua a fora, vida a fora. Às vezes pega um ônibus, mais das vezes caminha a esmo, vira em qualquer rua ou segue qualquer rota, mas sempre nos locais mais feios, mais pobres, mais tristes. Pode ser uma escola cheia de goteiras ou um hospital precisando de anestésicos, ou um desses prédios escuros e mal-cuidados, com pequenos consultórios cheirando a desinfetante e lágrimas.
Ana distribui garças azuis como se fossem bênçãos ou biscoitos da sorte. A quem ou para quem? As aves de papel não têm destinatário e não transmitem recados ou mensagens, sejam explícitas ou cifradas. Mas tem seus critérios, e distribui seus pequenos trabalhos de arte a quem deles mais precise. Como discernir quem são essas pessoas precisadas de uma mensagem de paz, no entanto, é um dom que nem ela pode explicar – puro instinto.
Tá vendendo, moça? Não; pegue uma, traz sorte. É, ando mesmo muito precisada. Ana sabe disto, mas sorri apenas e nada diz. Quando a tarde se dilui no abraço da noite e as ruas começam a se esvaziar da pressa e dos barulhos do dia, Ana volta pra casa com a caixa vazia e o coração cheio de paz. Está perto de completar as mil garças de origami que precisa fazer para que seu desejo seja realizado. Mas quando acontecer, vai mesmo parar?

