Decidimos retomar o tema sobre a queda de homicídios anunciado pela Secretaria de Segurança na semana passada para jogar mais luz sobre a manobra do governo, que tenta manipular os números e reivindicar para si os resultados positivos alcançados pelo seu antecessor, Renato Casagrande (PSB).
Na última semana, o secretário de Segurança André Garcia ocupou espaço privilegiado na mídia capixaba (A Gazeta e A Tribuna) para divulgar números que teria conseguido em primeira mão com o pesquisador Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). É importante registrar que o estudo repercutido por Garcia sequer foi publicado, e também que esses números já haviam sido publicados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em novembro de 2014. Curiosamente, à época, Garcia, que era secretário de Segurança de Casagrande já com emprego garantido no governo seguinte, preferiu ignorar os dados.
Na verdade, Garcia quis criar, a partir de dados requentados de 2014, um fato positivo para um governo carente de boas notícias. Afinal, o principal programa de governo voltado para a área social gerou mais repercussão negativa do que positiva. A estratégia truculenta de impor o Escola Viva à comunidade escolar criou uma aversão ao projeto, que acabou ganhando, na marra, sua unidade piloto em São Pedro, Vitória, mas deixou um rastro de descontentes pelo caminho.
O segundo “grande” programa do governo anunciado durante a campanha foi o Ocupação Social, que nada mais é que a continuidade do Estado Presente – criado no governo de Renato Casagrande. Embora o secretário se refira ao programa como uma versão aprimorada do Estado Presente, o Ocupação Social vem reeditado com cortes orçamentários, que devem impedir que o programa avance.
Mesmo com pouco dinheiro, cabe a André Garcia convencer a população que o Ocupação Social está mudando a realidade da Segurança no Estado. Ele também tem a difícil incumbência de dar forma aos números da violência, de maneira que a população entenda que os índices de homicídios colhidos agora são resultado do trabalho iniciado lá atrás, nos dois primeiros mandatos de Paulo Hartung.
Como Garcia foi subsecretário e depois secretário de Segurança no segundo mandato de Hartung, a estratégia é mostrar que se houve continuidade das ações de enfrentamento à violência durante o governo Casagrande, o mérito foi muito mais de Garcia, que é homem de Hartung, do que propriamente do governo anterior.
Por isso Garcia construiu uma intrincada engenharia com os números para reivindicar os resultados positivos para o atual governo. O secretário aponta 2009 como o ano referência para apontar onde a curva da violência se alterna de ascendente para descendente. O discurso seria mais ou menos o seguinte: “Todo o esforço feito por Hartung para combater a violência começou a dar seus primeiros resultados em 2010″. A falácia nunca foi desmentida por Casagrande, que reconheceu 2010 como marco da regressão da curva de homicídios. Era uma maneira de dizer que o governo Hartung não foi negligente com a segurança. Na verdade, 2009 registrou a maior taxa de homicídios desde 1980 no Espírito Santo, qualquer resultado que viesse após este ano poderia ser interpretado como queda. O governo Hartung não conseguiu reduzir as taxas de homicídios. A queda começou a ser registrada mesmo a partir de 2011 e se manteve ao longo dos quatro anos do governo Casagrande.
Garcia, porém, elege 2010 como o ano da reviravolta dos números. Casagrande, em função dos arranjos políticos, aceita fazer um governo de continuidade. Os acordos evitam qualquer crítica às políticas públicas de Segurança do governo anterior, ou melhor, a ausência delas. Para completar o acordo que joga a sujeira de Hartung para debaixo do tapete, o socialista nomeia para a Segurança Henrique Herkenhoff, outro nome do círculo de confiança de Hartung, e ainda cria uma nova pasta para Garcia, Ações Estratégicas, que funcionaria como uma espécie de “inteligência” da Segurança.
Hartung precisava de homens de sua inteira confiança dentro do governo para encobrir o seu pífio retrospecto no combate a violência. Ele temia que o novo governo escancarasse à sociedade que 14.234 pessoas foram assassinadas durante seus dois mandatos, ou seja, uma média de 1.780 mortes por ano, quase cinco por dia; que seu governo foi campeão nacional de homicídios de jovens negros e mulheres, e vice-campeão absoluto em assassinatos gerais.
No seu governo, praticamente, não houve reposição dos efetivos das policiais Civil e Militar. O buraco deixado nos efetivos foi sendo coberto, em silêncio, por Casagrande, que aumentou em 5,6 mil o contingentes das policias Civil, Militar e bombeiros.
Agora, com os números a seu favor, Hartung faz questão de reivindicar a paternidade da queda dos homicídios para si e omitir o trabalho de Casagrande. A manobra é rasteira, mas há muitos formadores de opinião comprando e revendendo a tese de que o marco da redução da violência no Espírito Santo começou ainda em 2003, com a dupla Paulo Hartung e Rodney Miranda.

