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Sexta, 30 Outubro 2020

As bruxas estão soltas

Os fabricantes de caixas de papelão estão se refestelando com a pandemia: a maioria do que é comprado online precisa ser bem embalado, e a maioria do que é comprado hoje é pelo sistema online. Imagino os tempos da gripe espanhola, sem essas facilidades que temos hoje. E ainda tem quem reclame. Juana Jaburi foi das poucas que parou de reclamar e arregaçou as mangas: investir na crise, mas como? Fabricar máscaras? Tem gente demais fabricando e gente de menos usando. Marmitex? Os restaurantes já estão pela hora da morte, não vou complicar ainda mais. Mesmo porque faltam capital e bons temperos. 

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O instrumento de ajuda, ou seja, o laptop, anda meio capenga mas ainda aguenta uns trancos. Falta o essencial: uma boa ideia que a ninguém tenha ocorrido ainda. A regra é universal: fazer alguma coisa que todo mundo quer e ninguém mais está fazendo. Simples, mas complicado. Juana rolou na cama insone por várias noites, pensando. E de repente, fez a luz! Complicado, mas simples: recolher todas as caixas de papelão jogadas no lixo e vender de volta para a Amazon, com a garantia de ter ficado no sol por 24 horas.

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Infelizmente a Amazon não aceitou a oferta - o Bezos pretende chegar ao quatrilhão de dólares ainda em 2020 e montou sua própria fábrica de caixas de papelão. E Juana com o apartamento superlotado de caixas empilhadas, de todos os formatos e tamanhos. Mas uma boa ideia jogada na rede acaba sempre sendo pescada, e pode render alguns dividendos. Para surpresa de Juana, a Taiga - justo o nome da segunda maior floresta do mundo - captou a mensagem e aceitou a oferta. Embora seja uma pequena empresa instalada na garagem do filho, o Sr. Abrazos, presidente, CEO, gerente, e único funcionário, declarou: Não queremos ser a primeira, mas ainda tem vaga no segundo lugar. Assim a Taiga está indo em frente, apelando para qualquer tipo de entrega, em qualquer tempo e lugar. Slogan apelativo: Rumo ao prata.

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Neste contexto, a oferta da Juana veio a calhar, mas com uma pequena exigência.. a Taiga só compra caixas com o emblema da Amazon. Isso dá credibilidade ao empreendimento e ninguém poderá acusar o Abrazos de apropriação indébita. Está apenas aderindo à norma vigente no novo normal: reutilize, recicle, repita. Achado no lixo não é roubado, diz o ditado. O proprietário vem pessoalmente pegar as caixas, primeiro de bicicleta, depois de moto, agora com uma caminhonete - tudo isso no mês de outubro, apenas. E ainda deu tempo para conhecer melhor a fornecedora, logo promovida a empacotadora e auxiliar administrativa.

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Mesmo considerando que o prometido segundo lugar estava ainda muito longe na mira do Abrazos, Juana concordou que ele transferisse a sede da empresa para seu apartamento, o que se pode considerar um grande avanço: o Bezos precisou de alguns anos para deixar a garagem dos pais, talvez porque os pais sejam mais tolerantes com as ideias malucas dos filhos. O filho do Abrazos não foi tão paciente e informou o despejo sem aviso prévio: Desocupa a garagem porque preciso do espaço para montar uma empresa de álcool em pó.

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Outubro chegou mas ainda não passou. A vacina não veio, e o vírus está igual politico corrupto, resistindo a todas as medidas preventivas. Enquanto isso, o fogo continua consumindo nossas esperanças de um mundo melhor. Tudo combinando bem com o Halloween, tempo das bruxas: se antes as coisas já estavam difíceis, imagina no mês em que elas estão soltas. O vírus continua se multiplicando enquanto a economia global vai encolhendo. Eleições em novembro e o Trump balança, balança…será que cai? Indiferentes a tantas incertezas, Abrazos e Juana vão muito bem.

P.S. Na foto, o envelope para depositar meu voto pelo correio.

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