Dada a situação econômica atual do Brasil e suas consequências nas finanças pessoais e familiares, vale uma abordagem reflexiva tanto para os que estão equilibrados financeiramente como para aqueles que não estão atualmente equilibrados e também para os que nunca estiveram.
Percebemos que a crise vem impondo mudanças no comportamento de consumo geral motivado pela perda no poder de compra, mas provável e principalmente, pelo risco de faltar os recursos necessários. Das mudanças promovidas, escutamos desde relatos de troca de marcas de produtos antes consumidos, até abrir mão do consumo de produtos e serviços.
O risco reside no outro lado desta moeda, onde, mesmo estando apertados e com o poder de compra reduzido, ainda há os que insistem em manter o mesmo padrão de vida, sem promoverem as adequações que a situação impõe, por se recusarem a abrir mão, de se “rebaixarem”.
Diante de uma dessas cenas da vida, me lembrei da fábula “A Cigarra e a Formiga”, atribuída a Esopo e recontada por La Fontaine, e percebi o quanto ela está atual.
Se compararmos os consumidores educados financeiramente, aqueles com o comportamento planejado, que são poupadores, apresentam relatos com certo sofrimento em relação à maneira como são tratados pelos outros, a como são rotulados e, principalmente, a como são lembrados por esses mesmos críticos em momentos de crise deles.
Indivíduos controlados no consumo costumam fazer, ao longo da vida, concessões, abdicações de itens que desejariam consumir, mas não o fazem em detrimento de causas maiores, como a conquista e a manutenção da independência e da segurança financeira sua e de sua família.
Quantas concessões são feitas, geralmente com naturalidade, mas às vezes com sofrimento, para manter o foco no trabalho, na formação de reservas para utilizarem na realização de sonhos e para o sustento no futuro, assim como as formigas da fábula fazem para enfrentarem o inverno rigoroso.
Nesse cenário, entram também as cigarras, que gostam de viver a vida cantando e que não acreditam que precisem trabalhar e abrir mão do que desejam aqui e agora em prol do futuro, preferindo viver assim “dez anos a mil”. Aí os dez anos se passam, assim como a fase para a ascensão e o ápice profissional, vem a curva de declínio, e precisa lançar mão de suas reservas para compor a renda necessária, e ela não existe.
É nessa hora que a cigarra costuma se lembrar da formiga. Aquela, que geralmente criticou por trabalhar arduamente e por não se divertir e, se aproxima no momento de necessidade para lhe pedir ajuda. Isso significa pedir que lhe repasse parte da reserva construída com empenho, zelo, planejamento e abdicação.
Quais sentimentos estão envolvidos nessas situações? A Culpa, o remorso, o arrependimento, a pena? E a raiva, será que não aparece?
Dizer sim para a cigarra pode significar dizer não para a própria formiga.
Citando a moral da fábula: “Não penses só em divertir-te. Trabalha e pensa no futuro. É melhor estarmos preparados para os dias de necessidade”.
Crise é momento de reflexão e de aprendizado.
Ivana Medeiros Zon, Assistente Social, especialista em Saúde da Família e em Saúde Pública,Educadora Financeira, membro da ABEF – Associação Brasileira de Educação Financeira, palestrante, consultora, colunista do Portal EduFin www.edufin.com.br
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