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As vilãs do consumo

A estiagem prolongada que se abate sobre o Espírito Santo expôs quem são os principais vilões da crise hídrica na Grande Vitória.  Durante a reunião com prefeitos nessa terça-feira (27), a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) anunciou as medidas que serão tomadas pelo governo do Estado para limitar o uso de água. Além de pedir aos prefeitos que adotem medidas para coibir o uso irresponsável da água por parte da população, a Agência admitiu que vai contingenciar o consumo de água no setor industrial, sobretudo na região mais populosa do Estado, que envolve a parte continental de Vitória e o município de Serra, justamente onde estão instaladas as duas maiores mineradoras do Estado: Vale e ArcelorMittal.
 
O anúncio das medidas gerou revolta no presidente da Federação das Industriais do Espírito Santo (Findes), Marcos Guerra, que não aceitou que seja colado o selo de vilã da crise d’água no setor industrial. 
 
Guerra declarou ao jornal A Gazeta (28/01/2015) que é “achômetro” a Agência Estadual de Recursos Hídricos afirmar que a indústria consome 30% da água do rio Santa Maria da Vitória. “Falar contra a indústria é uma fala impensada”, protestou. 
 
Apesar do discurso corporativista de Guerra, a Vale e a ArcelorMittal são responsáveis sim por grande parte do consumo de água nesta região. Não por coincidência, o Santa Maria é o rio mais impactado pela estiagem. O rio em condições normais deveria ter vazão de 35 mil litros de água por segundo, mas está com capacidade reduzida para 3,5 mil litros/segundo, ou seja, 10% de sua capacidade. Não é a população, que consome cerca de 6% de água, a vilã do consumo.
 
O presidente da Findes contesta os números da Agência. Afirma que em áreas fortemente industrializadas a atividade representa cerca de 16% do consumo. Ele usa um parâmetro genérico para rebater o índice de 30%, apontado pela Agência na região abastecida pelo rio Santa Maria. 
 
Guerra recorre a um dado geral que varia de região para região do país. Em São Paulo, por exemplo, o setor industrial consome 40%. O presidente da Findes, propositalmente, ignora que a siderurgia e a mineração, justamente duas atividades que predominam na região, são uma das que mais consomem água. 
 
O discurso de indignação de Guerra quer diminuir a pressão sobre as duas empresas para evitar que elas tenham a produção comprometida pelo contingenciamento iminente de água. Para pressionar o Estado e a acalmar a sociedade, ele recorre à chantagem da geração de empregos e receitas pelas gigantes da mineração. “E a produção? Vai parar? Vai quebrar as empresas?”
 
A Vale também já se apressou para afastar de si a pecha de vilã do consumo. Há cinco dias, a empresa noticiou em seu site: “Tubarão reduz em cerca de 70% o consumo geral de água com a reutilização”. Estrategicamente a Vale se antecipa para dizer que sempre esteve preocupada com a crise hídrica e investiu rios de dinheiro para se preparar para a escassez de água.
 
No texto, ela não revela, porém, que mesmo com a reutilização a atividade da empresa consome grandes volumes de água. Não registra também que os impactos dessa atividade não se refletem somente nos recursos hídricos. 
 
A estiagem prolongada assombrou a população da Grande Vitória com outro impacto ambiental: o pó preto. Nas últimas semanas se intensificaram os protestos da sociedade civil, pedindo que as poluidoras adotem medidas eficazes para conter a poluição. A falta de chuva e a maior intensidade dos ventos Nordeste tornaram o pó preto mais visível sobre os móveis e passaram a incomodar mais o aparelho respiratório da população, que faz filas nos otorrinos. 
 
A tolerância zero ao pó preto se voltou também para a omissão do poder público. A sociedade civil chegou à conclusão de que o governo do Estado, os prefeitos dos municípios da região metropolitana e os órgãos ambientais nada têm feito para proteger a saúde da população dos males do pó preto. Sempre que a pressão aumenta, a população já notou, o poder público anuncia medidas paliativas para acalmar a sociedade e adiar uma solução definitiva para o problema. 
 
A crise da água e a poluição do pó preto provocam uma reflexão inevitável para os moradores da Grande Vitória. Já passou da hora da sociedade civil organizada e do poder público reavaliarem se a convivência com essas empresas na região metropolitana ainda é possível. 

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