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Sexta, 30 Outubro 2020

​Baixarias e oportunistas

O Brasil segue aos tropeços, tal qual bêbado saindo de uma birosca de quinta categoria, em cenário no qual parece banal ouvir o "guru" do governo, o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho, mandar o maior mandatário do País enfiar "no c*" a condecoração que esperava receber e, logo no dia seguinte, recuar e dizer que fará tudo por ele, "até morrer". Acalmou-se com a vaquinha autorizada pelo chefe, de R$ 2, 8 milhões, tocada pelo "Véio da Havan", quantia certa para ele resolver umas continhas atrasadas. 

É o que leio em redes sociais e, com maior comedimento, também na imprensa, outrora respeitosa, condição perdida desde a posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019, obrigada por dever de ofício a acompanhar toda a movimentação própria de um governo, para manter o público informado. Como baixaria para o presidente é café pequeno, há um inegável incômodo nos apresentadores de TV que chegam aos lares respeitosos, principalmente os da classe média, onde vivem as "pessoas de bem", que formam as bases eleitorais, um tanto abaladas, da vitória nas urnas em 2018.

É bom lembrar, para ficar claro, que manter o público informado não é uma atividade muito em voga na Presidência da República, mais chegada a notícias falsas geradas no "Gabinete do Ódio", em parte já desbaratado, e a exercer a censura sobre os números de vítimas da Covid 19 para maquiar a irresponsabilidade da gestão que há 18 meses opera o desmanche do Brasil. Uma volta ao passado, à ditadura militar que em 1974 proibia a divulgação dos casos de meningite, inclusive com ameaça de prisão de "jornalistas comunistas". Faltava transparência, como hoje.

Era desse jeito, muito parecido com o momento atual, um cenário previsto por Umberto Eco, o escritor e filósofo italiano falecido em 2016. Foi em 1995, em conferência na Columbia University, Estados Unidos, sob o título "O Fascismo Eterno", que ele proclamou que o fascismo, apesar de parecer coisa sepultada no passado, "ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis e pode voltar sob as vestes mais inocentes". É assim, lobo vestido de cordeiro, apascentado por outros da mesma espécie.

A camuflagem, que é uma prática de guerra, pode ser vista em uniformes militares, mas, de igual modo, vestindo outros bajuladores das mais diversas maneiras. Domingo último, por exemplo, um grupo de proprietários de prósperas estruturas religiosas se reuniu em Brasília para orar pelo presidente e fazer profecias, usando o texto bíblico de forma distorcida. Um ato político, condenado pelos clérigos acostumados a mamar nas tetas do governo, seja por meio de benefícios na forma da lei, privilégios de bons empregos, entre outros. Círculo com ampla possibilidade de promover a cegueira espiritual.

O País patina prestes a desequilibrar-se. No meio desse cenário, crescem as bem-vindas manifestações em defesa da democracia, fator relevante para assustar Bolsonaro e seus militares, porque o grito das ruas repercute no Congresso e junto à classe política como um todo e tem o poder de derrubar governantes.

De real é que o bloco que o elegeu começa a se fracionar, em meio a devotos do "Messias" que insistem em manter a birosca funcionando desse (mau) jeito, participando de manifestações antidemocráticas em que pedem o fechamento de instituições. Nesse cenário chega em boa hora, inclusive no Espírito Santo, o Manifesto dos Policiais Antifascistas, que, juntamente com os movimentos de pastores evangélicos em defesa da democracia, quebra duas das pernas eleitorais que elegeram Bolsonaro e ainda o sustentam.

O caminho para o autogolpe que o presidente vislumbra, alimentado desde os tempos em que era deputado federal, passa pelos policiais, força com mais de 400 mil profissionais na ativa, superior às Forças Armadas, cujo efetivo é de pouco mais de 300 mil. Essa estimativa é de especialistas em estratégias belicistas, que apontam não ser à toa o esforço que ele faz para armar a população e manter a máquina miliciana azeitada. Ele quer guerra.

A essa altura, é chegado o momento das escolhas, de saber os alinhamentos corretos, a fim de que não se avance com a troca de seis por meia dúzia. A elite financeira não dorme e já se movimenta em ajuntar insatisfeitos com a formação de movimentos heterogêneos, acenando com a bandeira democrática. No entanto, sem um projeto de País, principalmente um que garanta o retorno dos direitos retirados dos trabalhadores e outras gritantes distorções impostas às áreas ambientais e econômicas pelo liberalismo ultraconservador, será como chover no molhado.

Os mesmos que participaram do golpe, agora se vestem de salvadores da pátria e passam a organizar frentes amplas para retirar o presidente inepto e tresloucado. Desavergonhadamente, nada fazem para mudar o status quo, mantendo os mesmos conceitos, maquiados com uma leve camada de democracia. Há muito golpista infiltrado, os mesmos que apoiaram e financiaram os mecanismos da tragédia em que o País vive, possibilitando a eleição de Bolsonaro e a retirada de direitos e conquistas históricas. Como camaleões, os oportunistas mudam a coloração e, para piorar a cena, contam não apenas com o apoio da elite, mas, igualmente, da classe média deslumbrada. O engano está colocado. 

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