No dia 30 de setembro de 2014, os candidatos ao governo do Estado participavam do último debate na TV antes das eleições de outubro. Apesar da polarização entre Renato Casagrande (PSB) e Paulo Hartung (PMDB), a candidata do PSOL, Camila Valadão, roubaria a cena ao encostar o peemedebista contra as cordas.
Logo no primeiro bloco do debate, Camila exigiu que Hartung explicasse à população sobre os gastos com dinheiro público em viagens aéreas particulares da então ex-primeira-dama e a omissão de patrimônio na declaração entregue à Justiça Eleitoral.
“Isso que o senhor fez é crime eleitoral”, advertiu Camila. “A população quer saber qual é o patrimônio do candidato. O senhor vai ter que responder na Justiça. O PSOL apresentou uma ação…”
Não se tratava de um blefe oportunista que é solto no calor do debate. De fato o PSOL havia entrado como uma ação contra Hartung na Justiça Eleitoral.
A primeira reação do candidato, após ser confrontado pela jovem adversária, foi de desdém. Hartung afirmou que havia passado o olho na ação e notara que os argumentos do PSOL eram inconsistentes. Acrescentou que a candidata fora mal assessorada e avisou que a ação não daria em nada.
A certeza na impunidade se refletiu nos leitores deste jornal que se depararam com a notícia. Mesmo antes de ser eleito governador, nem os mais otimistas acreditavam que a Justiça obrigaria Hartung a se explicar sobre os bens omitidos, tampouco que a ação resultasse em alguma punição ao então candidato.
Dito e feito. O Ministério Público Eleitoral (MPE) requereu o arquivamento do pedido de abertura de investigação judicial no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES) contra Hartung. No parecer assinado no último dia 31, o procurador eleitoral Flávio Bhering Leite Praça considerou improcedente a ação por falta de provas.
A manifestação do procurador seguiu a decisão do corregedor do TRE-ES, desembargador Sérgio Luiz Teixeira Gama, que rejeitou a maior parte dos pedidos de produção de provas contra Hartung.
O desfecho do caso confirma que Hartung continua blindado pelo Ministério Público e Judiciário, mas perdeu sua imagem de imaculado.
A ação do PSOL, judicialmente, não vai dar em nada mesmo, como antecipou Hartung, mas foi importante para materializar as denúncias contra o peemedebista.
Embora Hartung tenha debochado das denúncias, ele nunca teve a iniciativa, independentemente da ação na Justiça, de explicar não ao PSOL, mas à população do Espírito Santo os motivos de ter omitido seu milionário patrimônio da declaração.
Num país mergulhado em corrupção, seria uma atitude oportuna, sobretudo para quem se diz republicano, prestar contas à população. Se Hartung pudesse provar que as denúncias são de fato infundadas, não pensaria duas vezes para pôr tudo a pratos limpos.
Mas como explicar aos eleitores os motivos de sua mulher ter feito dezenas de viagens particulares ao Rio de Janeiro e a São Paulo à custa dos tributos do contribuinte? Ou como convencer a população de que não tinha a intenção de omitir uma mansão cinematográfica em Pedra Azul da declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral? Ou ainda esclarecer sua participação na empresa Éconos, consultoria que matinha em sociedade com seu ex-secretário da Fazenda, José Teófilo de Oliveira.
No caso da Éconos, por exemplo, se não houvesse nada a esconder, o próprio Hartung se anteciparia à Justiça e abriria o sigilo fiscal da empresa. Mas transparência e transações nebulosas são elementos antagônicos.
Quando Século Diário, cumprindo seu papel de informar o leitor, abriu a lista de clientes da Éconos, percebeu que mexeu em casa de marimbondo. Realmente deve ter sido perturbador para Hartung e Teófilo ver publicada a lista de 66 clientes da consultoria, que faturou em menos de três anos R$ 5,8 milhões.
Se os sócios não tivessem nada a esconder, não teriam feito um boletim de ocorrência exigindo que o jornal revelasse as fontes que teriam “vazado” o documento fiscal. Além do inquérito policial instaurado, Teófilo, que se mantém à frente da consultoria depois da saída de Hartung da sociedade, também entrou como uma ação civil na Justiça contra Século Diário, ainda não se sabe com quais propósitos. Mas, com toda a certeza, ao contrário da ação do PSOL contra Hartung, essa vai dar muito pano pra manga.

