Sábado, 15 Junho 2024

​Bolsonaro e seus paspalhos

Desde a devassa feita por Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a atuação de uma Agência Brasileira de Inteligência (Abin) paralela, com a investigação indo para além de um uso ilegal da ferramenta FirstMile, que usa uma brecha no sistema internacional de telecomunicações para grampear o telefone de qualquer pessoa e assim fazer seu monitoramento, a PF passou a mirar em relatórios e informações produzidos pelo que foi chamado de "núcleo político", com o nome de Carlos Bolsonaro ficando em destaque.

O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, afirmou que cerca de 30 mil pessoas foram monitoradas pelo tal software, com a estrutura montada por policiais federais lotados no CIN e na direção-geral ocupada por Alexandre Ramagem. Com o FirstMile se monitorava autoridades públicas, e também servia como serviço de contrainteligência e para criação de relatórios apócrifos para serem utilizados na produção de narrativas falsas. Os crimes investigados, por sua vez, são os de invasão de dispositivo informático alheio, organização criminosa e interceptação de comunicações telefônicas, de informática ou telemática sem autorização judicial ou com objetivos à margem da lei.

O general Augusto Heleno, que foi chefe do GSI, superior de Alexandre Ramagem, garante que não sabia de nada, uma vez que o próprio Ramagem disse que despachava diretamente com o então presidente Jair Bolsonaro. O monitoramento de autoridades públicas poderia incluir tanto governadores como até integrantes do Supremo Tribunal Federal. Segundo ministros do STF, tal Abin paralela só poderia ser viável com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro e do ex-chefe do GSI, general Augusto Heleno.

Por sua vez, a operação Tempus Veritatis, realizada no dia 8 de fevereiro deste ano, teve como alvo diversas autoridades e personagens ligados ao Governo Bolsonaro, como o próprio ex-presidente, que teve seu passaporte apreendido e foi proibido de manter contato com outros investigados. Esta operação especial investiga uma organização acusada de "tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito", isto abrangendo o período que antecederam e se seguiram às eleições presidenciais de 2022, para tentar manter Bolsonaro no poder.

A operação foi realizada após a delação premiada, fechada com a PF, do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, que está preso e sendo investigado na tentativa de golpe, dentre outras acusações que envolvem o ex-presidente e seu governo. A delação de Cid destaca que o antigo lacaio de Bolsonaro viu a tal minuta do golpe, a qual teria sido apresentada por Filipe Martins, em novembro de 2022, para Bolsonaro, e que detalhava interferências no Judiciário, decretava prisões de autoridades e convocava novas eleições.

Bolsonaro, segundo Cid, solicitou algumas alterações na minuta, concordou com os ajustes e convocou uma reunião com militares para pressioná-los a aderirem ao Golpe de Estado. A minuta, no caso, teria sido apresentada aos então comandantes das três forças militares (Aeronáutica, Marinha e Exército). Uma minuta convocando novas eleições, por sinal, já tinha sido encontrada na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres. Em ambos os casos, Bolsonaro nega ter tomado conhecimento.

Na operação Tempus Veritatis, também foram expedidos mandados de prisão contra Filipe Martins, ex-assessor especial de Bolsonaro, um major e dois coronéis do Exército, além de terem sido alvos de busca e apreensão figuras como Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), nomes importantes do governo Bolsonaro, como Walter Braga Netto e Augusto Heleno, além de Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa no final do governo Bolsonaro, Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, incluindo, por fim, dentre outros nomes mais, o de Tercio Arnoud Thomaz, assessor especial de Bolsonaro durante quase seu governo todo, e que também foi acusado de pertencer ao chamado "gabinete do ódio".

Devido a esses últimos fatos, foi marcada uma manifestação a favor de Bolsonaro na Avenida Paulista no último domingo (25), em que o ex-presidente tentou se restabelecer como força política, apesar de estar inelegível, e para desmanchar a tese de que poderia ir para a prisão por tentativa de golpe, uma vez que ainda tem respaldo popular, como se algum tipo de aclamação fosse um novo e anódino dispositivo jurídico equivalente à inocência criminal e civil perante o Judiciário.

Dentre várias patacoadas, o porta-voz de Bolsonaro, uma vez que o próprio está na berlinda, foi o pastor Silas Malafaia, de uma das denominações da Assembleia de Deus, a Vitória em Cristo, que, aos berros, cometeu bravatas e incitou a uma suposta coragem quem apoiava Bolsonaro e chamando de covardes os que tentavam condená-lo e as figuras de governo que saíram do trio elétrico quando ele esbravejou contra o Supremo e demais platitudes rocambolescas de gosto sui generis.

E, como soi acontecer na República de Pindorama, last but not least, tivemos um mamado Magno Malta imprecando em letras "garrafais" a sua defesa de Bolsonaro, um tipo de João Bobo que foi preterido em 2019 e que voltou como "mulher de malandro", anos depois, para papagaiar novamente em torno da figura de Bolsonaro. Este, por sua vez, que teve que moderar seu discurso, por força da lei, negou que tenha havido tentativa de golpe, que a minuta de estado de defesa teria que passar pelo Parlamento, Conselho, e etc.

Contudo, a trama golpista está mais que à luz do dia, e os envolvidos estão sendo investigados e, muito provavelmente, os desdobramentos contra Bolsonaro e muitos dos integrantes e asseclas do governo anterior serão negativos em relação a seus destinos. A conspirata de republiqueta deu errado tanto na minuta como no desastrado Exército Brancaleone que invadiu os Três Poderes, em Brasília, que era uma malta alucinada de pretensos patriotas que, agora, na manifestação de Bolsonaro, são tomados por incapazes que devem ser anistiados pela lei. Ou seja, as hostes mais inscientes e dementes do bolsonarismo, que encetaram o movimento de invasão, depois da incubação e dos transportes patrocinados para Brasília, além de idiotas, devem ser tomados por paspalhos que merecem anistia.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog
: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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