Olho para o computador e ele me encara, branco como o frio. Parece que nos enfrentamos, ambos dispostos a tudo – eu, precisando rabiscar alguma coisa que atraia o incauto internauta, meu leitor anônimo que agora já deve estar arrependido de ter parado nessa escala de sua jornada online. Ele, o computador, teimando em manter sua fria integridade.
A cor branca, indicando a ausência de cor, tem o mesmo significado de pureza, na nossa cultura pré-medieval – simbolicamente são a mesma coisa. Logo nos primeiros anos escolares nos incutem a ideia de que branco é sinônimo de pureza, de limpeza, de castidade, de bondade, de frescor, de novidade. Os anos passam e o conceito continua aceito e repassado, ninguém o contesta.
O antônimo, como o prefixo anti nos indica, é o contrário, o oposto, o antagonista, o lado escuro da lua. No caso do branco, seu antônimo é o preto, e não apenas literalmente. A cor preta, por analogia, representa o que é sujo, mau ou mal, obsceno, promíscuo. Esse conceito não foi inventado, mas foi bem explorado pelos ingleses, quando espalharam pelo mundo sua nascente revolução industrial.
Pois acharam na África povos selvagens de pele negra! Esses seres exóticos foram vistos – e mostrados ao mundo – como opostos ao que a raça branca representava – cultura, bondade, inteligência, desenvolvimento, riqueza, poder, força. Eles eram os conquistadores, e como sabemos, os conquistadores escrevem a história.
Meu computador não está preocupado com tais lucubrações filosóficas. Sua resistência ao meu afã literário dura pouco – meu texto precisa ser digitado, embora seja curto e tenha vida breve. Como a vida humana. Antigamente ia parar na lixeira, inglório fim; hoje aperta-se uma tecla e deixa de existir. Final infeliz? Talvez não. Quem sabe no futuro acharemos lixões espaciais com tudo que apagamos/deletamos/descartamos em todos os computadores, mundo afora?
Até aqui, consegui macular o branco da tela com 300 símbolos negros, que a poluem, se não literalmente, por certo simbolicamente. O negrume da noite é sempre derrotado pela claridade de um novo dia. E quando o oposto acontece, e se por algum acaso componho aqui uma obra prima (um dia chego lá), também dirão que a escuridão da incompetência foi derrotada pela claridade das novas ideias.
A pomba da paz é branca, tal como a bandeira da paz. Branco é o lírio do campo, que se veste como nenhum rei; branco é o véu da noiva. Ou era. A cor negra, coitada, mesmo nesses tempos de árduos esforços para uma igualdade social, continua sendo o outro lado da moeda. Um dia útil ainda é chamado dia de branco, se algo sai errado dizemos que a situação ficou preta, previsões ruins são nuvens negras sobre nossas cabeças.
Negro é o futuro, se não cuidamos dele no presente; negro é o passado, quando se tem algo a esconder. Os vilões dos filmes adoram se vestir de preto. Branca como o vácuo é a tela insensível do meu computador – 504 palavras, e nada foi escrito que esclareça (tornar claro, portanto branco), o que pretendia escrever.

