quarta-feira, abril 1, 2026
25.9 C
Vitória
quarta-feira, abril 1, 2026
quarta-feira, abril 1, 2026

Leia Também:

Bruxas soltas

Por incrível que possa parecer, na correria das últimas semanas, não sobrou tempo para escrever uma linha sequer sobre o desastre do Mineirão – lembra-se dos lamentáveis 7 a 1 aplicados pelos alemães à nossa Seleção em 13 de julho de 2014? Essa goleada ninguém esquece.
 
Tampouco pude tratar do acidente aéreo que matou o candidato presidencial Eduardo Campos no litoral paulista no último dia 13 de agosto. Ele se foi deixando uma mensagem recheada de esperança: “Não vamos desistir do Brasil”.
 
Por fim, fui pego de surpresa com a morte, dez dias atrás, do engenheiro Antonio Ermírio “Votorantim” de Moraes, líder do maior grupo empresarial brasileiro. Tinha 86 anos e se movia baseado na ideia de que o Brasil só sairia da condição de subdesenvolvido se investisse maciçamente em educação por décadas a fio – isso eu  ouvi dele, pessoalmente, numa entrevista à revista Exame num sábado de manhã, em 1980, em São Paulo. Essa era a “lição de casa” que o Brasil precisava fazer direito, dizia ele. Pois foi-se o homem, mas ficou sua mensagem.
 
Agora, atucanado pela propaganda eleitoral e assediado por 1001 candidatos que tentam nos convencer de que é preciso fazer isso, aquilo e outras coisas, decidi não esperar que uma nova catástrofe cruze meu caminho, pois as bruxas estão soltas e vem aí o dia 5 de outubro com seu cortejo de fantasias, promessas e presságios. 
 
Acredito que a maioria do eleitorado brasileiro vai votar pela continuidade do ciclo de reformas em andamento na sociedade brasileira porque, na realidade, mal começou a correção das desigualdades econômicas e injustiças sociais que constituem a base orgânica deste país.
 
Aos trancos e barrancos, o Brasil vem melhorando na educação, na saúde, na infraestrutura, telecomunicações, agricultura, comércio, indústria e outros itens que configuram a vida moderna. O país tem feito progressos inclusive em questões difíceis como a defesa do meio ambiente, das minorias – tudo isso sem maiores conflitos. Nossa democracia funciona, apesar das distorções da representação popular.
 
Nossa maior contradição é termos ainda altos índices de violência e criminalidade numa sociedade que se caracteriza basicamente pela cordialidade e o anseio de viver em paz. A raiz dessa contradição está na brutal desigualdade socioeconômica que ainda nos separa. Uns têm demais, enquanto milhões precisam dividir o que não lhes basta.
 
A maioria vem levando 7 a 1 do time dos bacanas, mas não será dando tiros que se vai virar o jogo. Nem mandando a bola direto da defesa para o ataque, como quis fazer o messiânico zagueiro David Luiz na Seleção Brasileira.
 
Não há lugar para salvadores do pátria no Brasil. A lição de casa passa por investimentos nas bases do sistema educacional, para que todos tenham chances de evoluir e desfrutar das benesses da civilização.
 
Segundo as pesquisas de intenção de voto, a eleição presidencial se encaminha para um mano-a-mano entre duas mulheres, ambas militantes políticas separadas por uma geração e unidas por causas semelhantes, o que por si só define o tempo revoltoso que estamos vivendo.
 
Se Dilma Rousseff entrou na luta armada contra a ditadura militar, nos anos 60, Marina Silva fez da luta ecológica dos anos 80 a sua bandeira contra a opressão capitalista, que não demonstra sinais de trégua em sua exploração desbragada dos recursos naturais, a começar pelos recursos humanos.
 
As duas estiveram juntas no primeiro governo petista do presidente Lula e entraram em rotas divergentes para só se confrontar agora, cada uma movida por ambições peculiares e interesses diversos. Ambas desenvolvimentistas, diferem na idade, na experiência e no enfoque, Marina crente em Deus, Dilma ateia ou agnóstica. Uma magra, obesa a outra, assemelham-se no fato de estarem circunstancialmente cercadas por agentes virulentos radicais típicos dos períodos eleitorais. Diz-se que é do jogo político, mas será lamentável se tamanho tiroteio resultar em perdas ou retrocessos no processo de ajuste socioeconômico do país, cuja população anseia por mudanças mais profundas. É aí que mora o perigo.
 
Se todos já conhecem o jeito de governar do PT; o modus operandi de Marina é uma incógnita, pois lhe falta uma base partidária mais ampla. Alguns associam sua candidatura a uma aventura personalista semelhante às de Collor ou de Jânio, cujos governos não chegaram ao fim. Em 1961, o mandato do vice Jango Goulart resultou na ditadura militar 1964-85. Em 1992, o mandato do vice Itamar fortaleceu a democracia em que vivemos.
 
A democracia, como o futebol e a aviação, contém riscos inerentes à sua prática. Ninguém está livre de acidentes, mas será lamentável se os brasileiros não souberem escapar dessa polarização que se formou em torno da permanência do PT no poder por 12 anos.
 
Governando com o PMDB e outros partidos (inclusive, até outro dia, o PSB que cresceu nos últimos anos a ponto de possuir cinco governadores), o PT tem o mérito de ter aprofundado sem medo o combate à miséria que assola a base da sociedade brasileira. A inclusão social é seu maior legado. Seus malfeitos têm sido corrigidos a duras penas pelas instituições, caso do mensalão.
 
A Direita, que nunca encarou os marginalizados com boa vontade, está de saco cheio da identificação do governo Dilma com os pobres, esquecendo que o topo da pirâmide econômica continua “prestigiado” pelo Planalto, para usar uma palavra do jargão futebolístico.  
 
Na realidade, além de Dilma e Marina, há outros dois candidatos presidenciais originários do PT. Uma é Luciana Genro, filha de um dos melhores quadros da Esquerda brasileira. Outro é Eduardo Jorge. No primeiro debate de presidenciáveis, na TV Bandeirantes, no dia 26 de agosto, foi ele o candidato mais humilde e sincero.
 
O Brasil daria um salto de qualidade se todos os políticos tivessem o nível de qualidade desse médico que foi secretário da Saúde no primeiro governo petista (de Luiza Erundina) na cidade de São Paulo entre 1989 e 1992. Como outro médico petista que foi prefeito de Vitória e governou o ES, Eduardo Jorge acabou se refugiando no PV, um partido que não está livre de jogadores políticos, mas mantém acesa a chama do movimento ecológico que transformou os partidos verdes da Europa em referências nessa época de mudanças climáticas.
 
Ora, direis, votar num partidinho mixuruca como o PV, mas nas eleições de 1988 havia também um partido pequeno emergindo na cena política e que só na quarta disputa conquistou a presidência. Seja qual for o partido, não se pode deixar de apostar na possibilidade de melhorar as coisas pela via democrática.
 
Última na fila da igualdade e da justiça, a esperança não pode nos abandonar justo no momento em que detectamos no rebrote da vegetação e nas floradas insurgentes de setembro os sinais da volta da primavera, com sua imensa carga de renovação e continuidade sem apocalipse.    
 
LEMBRETE DE OCASIÃO  
 
“Lula lá, brilha uma estrela, nasce a esperança, com sinceridade…”
 
(Dos jingles de campanha do PT em 1989, 1994, 1998 e 2002) 

Mais Lidas