Parte da sociedade capixaba que tem coração, cremos, a maioria, se indignou com dois recentes episódios de violência. O primeiro aconteceu no último dia 6, na Serra. A turba ensandecida espancou brutalmente Adailton Ferreira. A barbárie custou a vida do adolescente de apenas 17 anos. O outro caso ocorreu uma semana depois. Sérgio Rodrigues dos Santos, um ajudante de pedreiro, de 25 anos, que morava em São Pedro, na Capital, foi morto no mesmo bairro, muito provavelmente em função de um desentendimento num bar, a chamada “desinteligência”, como prefere caracterizar a polícia.
Na manhã do domingo (12), quando o padre Kelder Brandão da paróquia de São Pedro puxava a procissão de Ramos, se deparou com o corpo do jovem. Em protesto, o padre decidiu rezar a missa de Ramos ali mesmo, na rua, perante o corpo do ajudante de pedreiro que jazia sob o sol implacável.
São duas cenas fortes, impressionantes, que retratam os meandros da violência no segundo Estado onde mais se mata no país. Os casos de Adailton e Sérgio são evidências incontestes de que a violência no Espírito Santo se banalizou de tal maneira que assusta e indigna as pessoas que tem sangue nas veias.
Ao mesmo tempo, para muita gente, os casos passaram despercebidos. São pessoas que perigosamente estão se acostumando com a violência. Afinal, todos os dias no Espírito Santo quatro ou cinco pessoas são assassinadas. Às vezes até mais. E isso não é de hoje. O banho de sangue se arrasta por mais de uma década.
Durante o governo de Paulo Hartung (2003 -2010), que pouco ou nada fez para mudar essa realidade, cansamos de repetir neste jornal que a violência no Espírito Santo estava alcançando níveis insuportáveis. Alertamos que mais de 14 mil pessoas foram assassinadas durante os oito anos do governo Hartung. Pouca gente se importou.
Fomos implacáveis nas críticas ao então secretário de Segurança Rodney Miranda, que teve uma gestão pífia à frente da pasta. Não foi capaz de implantar um único programa para tirar o Espírito Santo do topo do ranking da violência. Apesar da desastrosa gestão, quando deixou a pasta ainda conseguiu emplacar o amigo André Garcia como seu sucessor. Foi ainda mais longe, consagrou-se nas urnas ao ser eleito o deputado estadual mais bem votado nas eleições de 2010. Dois anos depois, para surpresa de muita gente, conquistaria a Prefeitura de Vila Velha, derrubando dois medalhões da política canela-verde tidos como favoritos.
Incrivelmente, o mau gestor era coroado pelo eleitor, que pouco ou nada sabia sobre a real dimensão da violência no Estado. O sucesso seu deu em parte porque o “superdelegado” maquiava os maus resultados da Segurança com a ajuda da imprensa corporativa e com encenações midiáticas. Encarnado de “Rambo”, promovia verdadeiros espetáculos nas ruas. As cenas impressionavam a população, mas eram inúteis para conter a violência. Basta analisar os números da gestão de Rodney.
Se o governo Hartung foi um desastre na Segurança, o atual governo também não conseguiu avançar de acordo com a expectativa da população. Salvo a reposição do efetivo da polícia, que foi simplesmente abandonado no governo Hartung, Casagrande começou mal porque quis dar continuidade àquilo que já não vinha dando certo. Primeiro erro grave: decidiu manter à frente da pasta uma cria da dupla Hartung/Rodney. Convenhamos, Garcia é um secretário abaixo da média. Talvez servisse para ser secretário de Segurança de Genebra ou Viena, cidades onde praticamente não há crimes, mas não aqui, onde se convive diariamente com números de assassinatos de países que estão em plena guerra civil, com taxas que rondam a casa dos 50 homicídios por 100 mil habitantes.
Diante desse quadro desolador, é compreensível o desabafo dos militantes das entidades sociais (e do padre Kelder, em especial) que há anos acompanham essa verdadeira chacina urbana. Parece que a sociedade civil organizada, ao tomar conhecimento do que vinha sendo escondido há anos, chegou ao limite.
Na próxima quarta-feira (23) haverá a primeira reunião (19h30) do movimento contra a violência na comunidade de São Pedro. Esse movimento nada mais é que um apelo para que o poder público e outros setores da sociedade civil tratem a violência com a devida atenção que a gravidade dos fatos exige.
Seria um bom começo se na reunião estivessem representantes do governo do Estado, das prefeituras da Grande Vitória, do Tribunal de Justiça, do Ministério Púbico, da polícia, do empresariado e outros tantos atores da sociedade civil que ainda acreditam que é possível construir uma cultura de paz no Espírito Santo.

