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Casa de ferreiro…

Na última terça-feira (19), Carlos Fernando Monteiro Lindenberg Neto, o Café, diretor-geral da Rede Gazeta, foi empossado para comandar por mais dois anos (2015-2016) a Associação Nacional de Jornais (ANJ), que congrega hoje mais de 100 empresas jornalísticas.

 

Não só na cerimônia de posse, mas sempre que tem oportunidade de falar sobre o trabalho da ANJ, Café faz questão de destacar o compromisso da entidade com a liberdade de imprensa e com a democracia. “A liberdade de imprensa e de expressão são condições para os jornais serem agentes dessa mesma liberdade”.

 

Curioso é que há uma distância abissal entre o discurso e a prática. Os casos recorrentes de censura à liberdade de expressão no seu Estado natal parecem não sensibilizar o presidente da ANJ, que vira e mexe abre espaço no jornal do grupo para registrar outros casos de censura mundo afora.

 

No episódio mais recente que envolveu um veículo do Espírito Santo, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber, determinou a suspensão dos efeitos da decisão liminar da juíza da 6ª Vara Cível de Vitória (de 2012), Ana Cláudia Rodrigues de Faria Soares, que obrigou o jornal Século Diário a excluir cinco conteúdos (dois editoriais e três reportagens) relacionados ao promotor de Justiça capixaba Marcelo Barbosa de Castro Zenkner.

 

Em seu voto, a ministra destacou a “interferência na livre expressão jornalística”. Rosa Weber classificou a decisão da juíza, que determinavam regras para o jornal voltar a citar o nome do promotor em seu conteúdo, como censura prévia.

 

A decisão da ministra do Supremo foi tão importante para todos aqueles que defendem a liberdade de expressão e a democracia, que o caso de Século Diário repercutiu nos principais jornais e sites jurídicos especializados do país. No Espírito Santo, porém, não houve ressonância alguma, a não ser a repercussão publicada pelo próprio jornal que teve seus direitos violados. 

 

O presidente da ANJ não divulgou uma única linha sobre a decisão da ministra no jornal do grupo. Poderíamos até interpretar a decisão de ignorar o fato como uma prerrogativa editorial do jornal de não publicar nenhum conteúdo relacionado a outro veículo. Embora todos nós saibamos que a importância da decisão é muito maior que Século Diário.

 

Que ele não queira publicar nada no jornal do grupo, tudo bem, mas o silêncio da ANJ não dá para engolir. Curioso que em 2012, quando saiu a decisão arbitrária da Justiça capixaba sobre o mesmo caso, a entidade publicou uma nota de repúdio em seu site, que foi assinada por Francisco Mesquita Neto, então vice-presidente da ANJ. Coincidência?

 

Uma discreta nota, “cozinhada” de uma reportagem de O Globo, foi o único registro publicado no site da ANJ sobre a decisão da ministra. Ou seja, a entidade não se preocupou em fazer uma nota oficial sobre o caso. Ficou ainda mais estranha a omissão pelo fato de a ANJ ter soltado uma nota de repúdio na ocasião da censura.

 

Se a ANJ e os jornais capixabas se calaram, o jornal carioca O Globo, entendendo a importância da decisão, deu um show de cobertura sobre o episódio. Sem dúvida, entre os grandes, foi o que deu destaque à altura do voto de Rosa Weber. Além da reportagem, o jornal tratou o caso em um demolidor editorial, que sublinhou os principais trechos da histórica decisão.

 

Apesar de toda a repercussão, o presidente da ANJ permaneceu inerte. Seria difícil ele alegar que nada sabia sobre o caso de censura a Século Diário, que chegou a ser replicado inclusive por entidades internacionais que militam pela liberdade de expressão.

 

A omissão da ANJ nos leva a uma desalentadora conclusão, até 2016, quando se encerra o segundo mandato de Café, Século Diário não poderá contar com o apoio da ANJ nas questões relacionadas à liberdade de imprensa.

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