Há três semanas, desde que tiveram início as manifestações de rua no Espírito Santo, o governador Renato Casagrande (PSB) tem se mostrado desnorteado. É verdade que o fenômeno que eclodiu nas ruas pegou muita gente de surpresa. São muitos os governantes que ainda estão que nem cego em tiroteio. Que o diga a presidente Dilma, que viu sua popularidade despencar com as ondas de protesto. Mas se fizessem uma pesquisa por aqui, o resultado não seria muito diferente para Casagrande.
Depois do susto inicial causado pelo balanço do asfalto, alguns governantes passaram a quebrar a cabeça para decifrar o clamor das ruas e tentar encontrar um canal de interlocução com lideranças que de tão coletivas são anônimas. Outra situação inédita para eles.
No Espírito Santo, o governador socialista, desde início dos protestos, tem errado a mão na condução da crise. Desde o dia 17 de junho, quando os primeiros manifestantes puseram os pés nas ruas, os erros do governo têm sido sucessivos.
Mesmo quando, tardiamente, anunciou que estava aberto para dialogar com os manifestantes, também errou. Faltou-lhe sagacidade para perceber que naquele momento era importante que ele em pessoa saísse na foto na cabeceira da mesa do Palácio Anchieta inaugurando um canal de interlocução com os manifestantes. Mas não, preferiu enviar subalternos para representá-lo. Até a presidente Dilma fez questão de sair na foto com integrantes do Movimento Passe Livre. Era estratégico, ela sabia.
Casagrande se esquivou e ainda confiou a missão de representá-los a interlocutores despreparados ou inoportunos para o delicado momento. São, por exemplo, sempre os dois representantes da Segurança (André Garcia) ou da PM (coronel Edmilson dos Santos) que falam após os protestos. Pior, falam bobagem. A interpretação das ruas é que o governador socialista só sabe dialogar via forças de segurança.
Se o que já está ruim ainda pode piorar, podemos dizer que se há três semanas o movimento tinha uma profusão de pautas e não tinha ao mesmo tempo nada, agora já tem um inimigo identificado para lutar: a cobrança do pedágio da Terceira Ponte, que passou a ser um território estratégico tanto para o governo como para os manifestantes. Não é por acaso que os sete protestos que ganharam as ruas até agora terminaram na praça de pedágios, que se transformou numa espécie de “Faixa de Gaza” das manifestações.
Não bastasse a maré ruim para o governo, o deputado Euclério Sampaio (PDT), numa jogada de mestre, materializou o furor das ruas num projeto de decreto legislativo que pede o fim da cobrança do pedágio na Terceira Ponte. Se antes já havia um inimigo, agora já existe também um projeto em vias de ser votado. O caos estava instalado.
A manobra do Palácio Anchieta para obstruir o projeto, missão que coube ao deputado Gildevan Fernandes (PV), desgastou ainda mais a imagem do governo e deixou patente que o Executivo imiscui quando e como bem entende no legislativo. O próprio Euclério, na última segunda (2) – data da manobra que brecou a votação do seu projeto e desencadeou a revolta dos manifestantes que acompanhavam a sessão a ocuparem a Assembleia -, no calor dos acontecimentos, soltou que o governo fez uma verdadeira blitz na Casa para tentar cooptar os deputados a votarem contra a proposta.
Na base do desespero, só restou ao governo, naquele momento, ganhar tempo para pensar. Prevendo que a Assembleia, mesmo ocupada, pode retomar as atividades legislativas na próxima segunda (8), com chances de o projeto retornar à pauta de votação na quarta (10), quando vence o prazo regimental para o pedido de vista de Gildevan, Casagrande anunciou nesta sexta-feira (5) seu plano B, registre-se: um tanto previsível e fraco.
Depois de ter se aproximado do Tribunal de Justiça e do Ministério Público, o governo conseguiu trazer para a trincheira da Terceira Ponte o Tribunal de Contas. Ele anunciou uma auditoria que será realizada pelo TCE, mas com a chancela das instituições, que selaram um pacto com o governo. Se queria transparência, deveria ter entregue o serviço a uma auditoria séria. Vamos combinar que o TCE não está com essa bola toda para investigar contas, e muito menos o MPES para fiscalizar. Basta lembrar que o procurador-geral de Justiça é conhecido também como o “rei do escaninho”. É doido para arquivar as coisas e deixá-las bem guardadinhas.
Abrandando o discurso. O governo que falava na semana passada que o contrato com o Rodosol era sagrado, já cogita rever o valor da tarifa e o contrato propriamente dito. O governo aposta que o plano B seja capaz de mudar o voto de alguns deputados que estão propensos a apoiar o projeto de Euclério. O anúncio serve também para dar uma satisfação à população, dizendo que as instituições mais ilibadas deste Estado estão imbuídas da tarefa de jogar luz sobre o contrato da Rodosol. Faltou combinar com a população, que não deve se contentar com a redução das tarifas. Todos querem mesmo é o fim da cobrança.
O presidente do TCE, Carlos Ranna, ja adiantou que a auditoria levaria no mínimo 90 dias. Se os conselheiros não extrapolarem o prazo, o resultado desse estudo ficaria pronto em meados de outubro. Até lá, Casagrande acredita que a temperatura das ruas já tenha arrefecido e os deputados voltem ao “normal”, ou seja, priorizem os interesses do governo e das elites em detrimento dos da população.
Como o governo só errou até agora, não será de se estranhar que o plano B também naufrague as pretensões do governo de criar uma cortina de fumaça para esconder o conteúdo desta caixa-preta chamada Rodosol.

