Vamos falar a verdade, senhores deputados? Afinal, já temos mais de 18 anos e parece que estamos numa democracia, em pleno século XXI. A arte nunca foi componente de alta periculosidade para desvirtuar crianças, jovens ou adolescentes do “bom caminho”… A arte nunca arregimentou ninguém para a prostituição, suas manifestações não influenciam pedófilos a agir… Estátuas, esculturas e quadros não abusam de ninguém…
Os casos de abuso contra crianças ocorrem, muitas vezes, dentro de suas próprias casas, por pessoas que são próximas e até mesmo de suas próprias famílias. Também costumam ocorrer dentro das igrejas… Vejamos as notícias de pastores e padres envolvidos em escândalos de pedofilia ou de abuso sexual. Não são casos isolados, não, são narrados há décadas e décadas.
Se todos os estudos e estatísticas provam e comprovam que os abusos contra crianças e adolescentes ocorrem dentro de espaços em que elas são acostumadas a conviver e praticados por pessoas próximas e até mesmo de sua confiança, não é a nudez das estátuas ou dos artistas que está em jogo, mas, sim, a hipocrisia.
Mais nocivo que um quadro ou uma escultura com nudez, que, aliás, é retratada desde os tempos mais longínquos por artistas imortalizados, de Michelangelo a Rodin, merece censura o comportamento de maridos que abusam e traem suas esposas; de pais que espancam seus filhos ou agem com autoritarismo castrando a individualidade e a vida interior de cada um deles; de políticos e de líderes religiosos que contrariam a confiança de seu eleitorado e de seus fieis. Sim, a família é uma das instituições mais importantes para a sociedade, mas nem todas são daquele tipo “propaganda de margarina”. É o exemplo que sempre fala mais alto, que dá direção.
Por falar nisso, senhores deputados, o que passa nas novelas das sete ou das oito é mais inadequado do que muita exposição artística. Cena comum são famílias inteiras sentadas ao sofá, ao lado de crianças, para assistir a esses programas, independente da classificação de idade. E o que é visto diariamente na internet? Por sinal, de muito mais fácil acesso; ao alcance da mão.
Caso haja algum tipo de abuso em manifestação artística, as leis já estão postas. Basta utilizá-las. Há o Estatuto da Criança e do Adolescente, as restrições de conteúdo indevido para cada idade. A tal nefasta exposição do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, que foi divulgada em vídeo mostrando uma criança tocando os pés de um artista nu e que deu origem a toda a indignação coletiva dos parlamentares, ocorreu num espaço sinalizado com censura de idade. Em nota, o museu explicou que “a sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística” e criticou as “manifestações de ódio e de intimidação à liberdade de expressão que rapidamente se espalharam pelas redes sociais”. Logo em seguida, a exposição “QueerMuseu” no Santander Cultural em Porto Alegre, também foi fruto do ataque de quem parece não conhecer nada de arte ou de história da humanidade.
Também ganhou tom de indignação, quase de “choque” entre os senhores deputados, um ativista que resolveu protestar arriando as calças no plenário da Casa no debate sobre o projeto, na sessão dessa segunda-feira (19). Não foi o primeiro a fazer isso no País, mas era o que os parlamentares precisavam para alimentar os discursos. Até prisão para o moço foi pedida.
O ideal seria ver, na Assembleia, ao invés de falsos moralismos, tamanha indignação com outros atos, de fato, de alto potencial de atentado à paciência da sociedade que os elegeu. Como a corrupção da classe política, o fechamento de escolas do interior, o desvio de verba pública da saúde para empresários, a destruição do meio ambiente pelos grandes projetos poluidores, as violações aos direitos humanos…
Sabe qual a impressão? O que incomoda não é a nudez na arte. O que incomoda é a liberdade que a arte proporciona. Senhores deputados, é verdade, a arte liberta; liberta até da hipocrisia, esse mal que domina a “tradicional” sociedade capixaba!
Melhor é se desnudar dela! Castigada seja toda a hipocrisia!

