País é o que consome mais cocaína no mundo
Em relação ao ataque ilegal dos Estados Unidos sobre a Venezuela, alguns governos latino-americanos deram apoio à iniciativa, como a Argentina, sob o governo de Javier Milei, em ruptura a uma orientação que norteava a política externa deste país, ou seja, o antigo apoio à autodeterminação dos povos e da não intervenção em assuntos internos de outros estados. É bom lembrar que Milei recebeu apoio financeiro do governo Trump nas eleições legislativas argentinas. Com efeito, Milei afirma que a fonte de renda de Maduro é o narcotráfico do Cartel dos Sóis.
Alguns países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), junto à Argentina de Milei, assumiram o papel de bloquear uma declaração conjunta que visava a condenação do ataque norte-americano na Venezuela, que seria promovida pela Colômbia, que preside atualmente a organização. Contudo, países como o Paraguai, Bolívia, Equador, El Salvador e Panamá, que possuem governos de direita no poder, deram também o seu apoio à intervenção ilegal dos Estados Unidos.
O governo da Argentina prepara uma cúpula de líderes de direita para o primeiro semestre deste ano em Buenos Aires, com inspiração no Grupo de Lima. A iniciativa representa um avanço na formação de um bloco de países de extrema direita, em combate ao socialismo e a afirmação da liberdade, tal como o Chile, que teve a eleição do ultracatólico José Antonio Kast, que assumirá a presidência do país em 11 de março, deixando para trás o governo de esquerda de Gabriel Boric. No Peru, o presidente José María Jerónimo fechou as fronteiras do país para venezuelanos ligados ao governo Maduro, com ações semelhantes às perpetradas por Milei.
Na relação “desigual”, quer dizer, da hipocrisia norte-americana, uma tradição diplomática inabalável, teve o indulto concedido por Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos por tráfico de drogas, ao passo que encarcera Maduro pelo mesmo motivo. Nesta nova Doutrina Monroe, a Donroe, estamos, mais uma vez, diante de disputas ideológicas e que se alimentam, também, de interesses econômicos, como a questão do petróleo na Venezuela.
Os Estados Unidos atuam, historicamente, pelo uso da força, pela intervenção, coerção, ameaças, embargos, chantagem, o que for, para a garantia de controle e submissão de países ideologicamente contrários à sua cartilha política e econômica. No bojo do ataque à Venezuela, Trump voltou a acusar a presidente do México, Claudia Sheinbaum, de ter medo de confrontar os cartéis de drogas de seu país.
Mesmo com a insinuação de Trump afirmando que essas organizações é que governam ali, Sheinbaum tem demonstrado firmeza e independência diante dos ataques verbais do presidente norte-americano, rejeitando interferências estrangeiras, e reforçou que o combate ao crime organizado é responsabilidade do Estado mexicano, sem aceitar imposições de fora. Ela afirmou: “O México não é um protetorado nem o quintal de ninguém”.
A verdade é que Sheinbaum está cooperando com o governo Trump no combate ao narcotráfico, pois existem razões humanitárias envolvidas, e a violência que ocorre no país tem como causa as armas de grosso calibre dos Estados Unidos que entram ilegalmente no México, somando-se a isso o intenso uso de drogas no país norte-americano. Com elogios vindos, por exemplo, do The New York Times, a diplomacia de Sheinbaum é marcada pelo respeito à soberania das nações e a resolução de conflitos pelo diálogo, sem uso da força.
Existem as duas questões que envolvem o México, na segurança, com o tráfico de drogas, e na questão humanitária, com a migração aos Estados Unidos, servindo de corredor para pessoas da América Central e do Sul em busca do “sonho americano”. A pressão migratória é a principal moeda de troca nas políticas bilaterais que envolvem esta questão, e o conflito entre Sheinbaum e Trump reside na tríade comércio, tráfico de drogas e imigração.
Tais questões do México provocam táticas norte-americanas que variam do uso de força militar, tarifas, além de sanções unilaterais à imigração. Sheinbaum evita embates retóricos, embora tenha feito concessões na política de segurança e de imigração, cooperando com os Estados Unidos nas extradições, no combate ao narcotráfico e no controle da fronteira do sul mexicano.
Os Estados Unidos são o país que mais consome cocaína em números absolutos no mundo. O consumo de drogas em geral aumentou ligeiramente no país nos últimos anos, sob o influxo da epidemia de fentanil, opioide que dominou cidades como Los Angeles e matou mais de 70 mil pessoas por overdose em 2023. As substâncias químicas vêm da China, mas a fabricação é feita em laboratórios mexicanos. A cocaína, por outro lado, é consumida por cerca de 2% da população total norte-americana, droga que vem de países como a Colômbia, Bolívia e Peru. Ou seja, grande parte da cocaína consumida nos Estados Unidos não vem da Venezuela.
O consumo de cocaína nos Estados Unidos vem reduzindo ligeiramente desde 2021, no entanto, as mortes por overdose viraram uma preocupação devido ao fato da crescente contaminação da droga com fentanil lícito. Em 2025, aproximadamente uma em cada quatro amostras de cocaína testadas em laboratório continha fentanil, aumentando o risco de overdose para usuários que não consomem opioides.
Nesse mesmo ano, a produção global de cocaína atingiu um recorde histórico, com queda dos preços nos Estados Unidos, sendo o mercado de drogas ilícitas que mais cresce no mundo. As apreensões globais da droga atingiram um recorde recente de 2.275 toneladas, um aumento de 68% em relação ao período 2019-2023, com seu uso crescendo de 17 milhões de usuários em 2013 para 25 milhões em 2023.
O tráfico de cocaína se espalha por novos mercados na Ásia e na África, com a violência notória que ocorria na América Latina se repetindo para a Europa Ocidental, com o aumento da influência de grupos criminosos organizados dos Bálcãs Ocidentais. O mercado predominante ainda é a América do Sul, com Colômbia, Bolívia e Peru, que produzem quase 100% da cocaína do mundo, apesar de novos campos de cultivo surgirem. Só de cocaína pura foram produzidas cerca de 2.757 toneladas em 2022, aumento de 20% em relação a 2021.
Este novo cenário se deve às inovações no cultivo nos últimos anos, com mais investimentos em fertilizantes e conhecimento genético para a obtenção de novas variedades de coca. Na Colômbia, uma mudança adotada pelo governo no combate às culturas ilícitas ampliou o cultivo, que foi o fim da fumigação aérea com glifosato para acabar com as plantações de coca em 2015, alinhada com as recomendações dos Estados Unidos, pelas dúvidas referentes ao herbicida em relação à saúde.
Com a suspensão da pulverização aérea, o arbusto de coca passou a alcançar seus níveis máximos de produtividade. No caso, a mesma planta de coca produz mais cloridrato de cocaína e podem ser feitas seis colheitas por ano ao invés de três. Esse aumento na produção de cocaína e o cultivo de plantas mais potentes explica a expansão do mercado dessa droga no mundo, com uma substância de alta pureza e com preços estáveis. Ou seja, a cocaína mundial está mais barata e bem mais pura.
A expansão da oferta e demanda de cocaína se relaciona com o aumento de violência em países que são corredores desse comércio, ao longo da cadeia de suprimentos, como Equador e países do Caribe, somando-se aos danos à saúde em países da Europa Central e Ocidental, que consome cada vez mais esta substância. Os Estados Unidos, por fim, continuam como os grandes consumidores de cocaína em números absolutos no mundo, como dito, e são, ainda, o maior mercado consumidor de drogas ilícitas do mundo.
Os Estados Unidos têm altas taxas de consumo, também, de maconha, metanfetaminas, incluindo os opioides sintéticos como o fentanil, com cerca de 16% da população norte-americana entre 15 e 64 anos tendo consumido alguma substância ilícita no último ano, com um uso problemático de opioides que produz uma crise de saúde pública no país, e que impacta sobre o sistema de saúde, segurança pública e nas políticas envolvendo a justiça criminal.
A falta de estratégias eficazes para a redução do consumo de drogas no mundo, e ainda a prevenção e tratamento, privilegiando apenas a repressão da oferta, são de efeito limitado para o panorama geral do problema, pois seria melhor o reconhecimento de todos esses elos da cadeia, fazendo com que se formulem políticas mais articuladas e multilaterais.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: poesiaeconhecimento.blogspot.com

