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Cheque em branco

A edição do jornal A Gazeta desse domingo (17) traz uma entrevista com Paulo Hartung (18) sobre o empréstimo de meio bilhão que deve ser contrariado junto ao Banco do Brasil. Apesar da controvérsia, a proposta foi aprovada numa sessão extraordinária na Assembleia na última quarta-feira (13), minutos antes de o governador fazer sua prestação de contas aos deputados. 
 
Apenas dois deputados — Sérgio Majeski (PSDB) e Eliana Dadalto (PTC) — votaram contra o projeto do governo. O tucano ainda tentou aprovar duas emendas que garantiriam um pouco mais de transparência às entrelinhas da proposta. Ele queria esclarecer ao menos quais seriam as destinações do dinheiro, já que na justificativa do projeto o governador fala subjetivamente que o empréstimo será utilizado para manter o ajuste fiscal e assegurar investimentos. 
 
Ao questionar o projeto que chegou às mãos dos deputados na terça à tarde para ser votado em regime de urgência na quarta de manhã, ou seja, em menos de 24 horas, Majeski chamou atenção para a falta de informações dos colegas que aceitaram aprovar o projeto praticamente no escuro. 
 
Os questionamentos do deputado, todos plausíveis, diga-se, foram interpretados como um movimento “do contra”, que tenta minar o esforço do governo em equilibrar as contas do Estado. 
 
A entrevista do governador confirma que Majeski tinha razão em questionar o projeto. À ocasião da votação, ele inclusive chegou a desafiar os colegas, afirmando que a maioria não tinha consciência do teor do projeto que estavam aprovando. E não tinham mesmo, como muitos outros projetos do Executivo que são aprovados pela Casa sem questionamentos. O governador, na entrevista, deixa claro que ele mesmo sabe pouco sobre o projeto ou prefere não dar detalhes à população. 
 
As respostas são evasivas. Ao ser inquirido se o governo precisa mesmo do empréstimo, Hartung responde um seco “não sei”. Em seguida, aborda questões que dão mais generalidade à justificativa: “Estamos nos acautelando num cenário de muitas incertezas”. Bota incerteza nisso.
 
“Quando o governo realizará a operação”, pergunta o repórter, que é surpreendido por outro “não sei”. Ele diz que irá conversar com o Banco do Brasil para desenrolar a parte burocrática. E emenda outra evasiva: “Nem sei o tempo que dura isso”, responde displicentemente. 
 
O repórter quer saber se o governo vai pegar R$ 500 milhões ou somente parte desse valor. Nova evasiva: “Não sei”. Didático, o repórter pergunta ao governador o óbvio: como será usado o dinheiro? “O royalty pode ser usado para investimento e pagamento de dívidas, acho que é isso”. 
 
No final da entrevista ele deixa mais uma interrogação no ar ao falar do trâmite do empréstimo na Secretaria da Fazenda. “(…) Mas se a Cristiane [Mendonça, secretária interina da Fazenda] antecipou que está discutindo, isso é muito bom. Só que não é do meu conhecimento”. 
 
Vamos ver se entendemos. O governo manda um projeto em regime de urgência para Assembleia para contrair um empréstimo de meio bilhão de reais. Os deputados aprovam o projeto de olhos fechados. O deputado Sérgio Majeski, apoiado pela deputada Eliana Dadalto, questiona o projeto, mas é vencido. Três dias depois da aprovação, comemorada pelo presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM), como mais uma demonstração incondicional de subserviência da Casa ao Executivo, o governador dá declarações à imprensa que confirmam seu desinteresse em dar transparência à operação de empréstimo.
 
Resumindo a entrevista. Hartung não sabe se precisa do dinheiro. Não sabe quando o governo pretende realizar a operação. Não sabe se vai usar todo o dinheiro ou parte dele. E tampouco sabe explicar com precisão se o empréstimo poderá ser usado para investimento e pagamento de dívidas: “Acho que é isso”. 
 
As respostas na verdade revelam a falta de compromisso do governador com a transparência. Os deputados que deveriam fiscalizar o Executivo, assinaram um cheque em branco para o governador. Em branco não, porque o valor é sabido: R$ 500 milhões.

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