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Sexta, 23 Outubro 2020

Cidades invisíveis

Em tempos muito remotos, povos que sofriam constantes invasões inimigas criavam cidades subterrâneas para não serem dizimados ou levados como escravos. Hoje essas incríveis construções escavadas na pedra são atrações turísticas visitadas por milhões de pessoas. As cidades subterrâneas da antiguidade nos ensinam lições de paciência nesses tempos de prisão individual para o bem coletivo.

O oposto do que temos hoje na escalada para cima, com arranha céus disputando a dúbia honraria de subir mais que o mais alto da vez.

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Milagres da tecnologia moderna, morar em um edifício tão altos que você pode ver um relâmpago olhando para baixo, e não para cima. A altura traz a ideia de liberdade: aglomerados mas desfrutando os amplos espaços que a vista pode oferecer, mesmo quando tem outro espigão bem em frente em uma nem sempre pacífica convivência janela a janela. Como teria sido viver também empilhado, mas se aprofundando para o âmago da terra? Algumas dessas cidades têm mais de 5.000 anos.

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A região da Capadócia, na Turquia, tem mais de 200 cidades subterrâneas. A maior e mais famosa é Derinkuyu, uma cidade descendo por sete andares, que podia abrigar 20 mil moradores confortavelmente. Tinha aposentos individuais, estábulos, igrejas, escolas, refeitórios, armazéns, vinícolas, produção de azeitonas e cerâmica. Os animais eram necessários para fazer as máquinas funcionarem. Outra cidade subterrânea muito visitada é Orvieto, na Itália, construída pelos etruscos há 2.500 anos. Ali a vida era mais difícil, com salas mais apertadas, tetos baixos e degraus muito íngremes.

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Em todas as cidades subterrâneas, os sistemas de água e esgoto fazem inveja à tecnologia moderna. Em algumas a população vivia o tempo todo, indo ao ar livre apenas para cuidar das plantações de frutas e hortaliças. Outras eram usadas apenas em tempos de guerra. As câmeras muito estreitas e baixas não eram por preguiça, mas para melhor defesa se os inimigos entrassem - de um a um. Quando os romanos sediaram uma cidade subterrânea, a população sobreviveu no subsolo por dois anos. Imagino um claustrofóbico tendo que viver enterrado sob uma montanha de pedra.

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Todos estamos sofrendo uma reclusão forçada como em tempos de guerra, embora essa também seja uma guerra contra um inimigo oculto mas bem determinado. Grudados na TV na expectativa de um milagre: um repórter ou mais provavelmente o presidente da república anunciando que já temos vacinas para todos. Abram portas e janelas e vamos para as ruas comemorar com música e fogos de artifício. Talvez um paciente recuperado encontre uma enfermeira bonita na multidão e mesmo se não a conhece, não resista ao impulso de tacar-lhe um beijo na boca. Mais uma foto que entrará para a história. 

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