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Código de desonra

Aos 9 anos Nilo pegou  o vidro de cola e lambuzou a cadeira da professora.  A classe toda viu, mas ninguém ousou rir quando a professora se senta e percebe o desastre. Nos filmes ela ia ficar grudada na cadeira para sempre, mas na vida real ela se solta, mas rasga a saia nova.  E aí o auê habitual – quem foi quem não foi, quem fez quem viu fazer, melhor falar agora do que calar para sempre.
 
Nilo murchou as orelhas e ficou mudo, e nenhum dos colegas o denunciou, apesar das pressões da diretoria e dos pais. Resultado, a classe toda pagou o pato que não comeram, ficando sem recreio por uma semana, mais dever de casa em dobro, etc, etc. Quando a vida voltou à rotina de sempre, Nilo foi excluído ou execrado pelos colegas que sofreram pelo ato que ele cometeu sozinho? Muito pelo contrário, virou herói.
 
Nos anos seguintes Nilo continuou aprontando, e quando pressionados a denunciar o culpado, todos se calavam. A faculdade foi campo fértil para as gracinhas do Nilo, sempre com os mesmos resultados –conivência dos colegas. Manter silêncio era uma questão de honra, embora todos sofressem as consequências. As situações criadas pelo Nilo eram atos de indisciplina e não represália contra desmandos, injustiças ou abusos de autoridade. 
 
No filme Perfume de Mulher, o estudante Charlie recusa-se a denunciar o culpado de um ato de vandalismo na faculdade, e apenas pela intervenção do personagem cego interpretado por Al Pacino ele não é expulso. E sai como herói, não porque é inocente, mas por não denunciar um colega que errou duas vezes – uma ao praticar um ato ilícito e outra por deixar outro pagar por ele. Estranho código de honra, não?
 
Tais situações são comuns e aceitáveis, desde que não prejudiquem outros. Mas havendo consequências sérias, quem denuncia não deve ser confundido com o alcaguete, o dedo-duro, e outros nefandos da vida. Com o diploma da faculdade devidamente emoldurado na parede da sala, Nilo adentrou a vida real mantendo as mesmas atitudes de rebelde sem causa, sempre se safando das consequências.
 
Mas quando tingiu de vermelho o pelo da branquíssima cachorrinha do chefe, a coisa ficou feia. Nem tanto pela cor escolhida, mas porque Madona, como a chamavam, tinha alergia a produtos químicos. O chefe ficou duplamente possesso, e diante do ‘Alguém denuncia ou estão todos despedidos’, ninguém ficou calado. Talvez se naquela primeira façanha, aos nove anos, Nilo tivesse sido denunciado, hoje não estaria desempregado. 
 
PS – Tempos modernos: minha televisão em Miami transmitindo o jogo Flamengo X Ponte Preta. Quem diria, em Cariacica! Ou graças ao Netflix, assistir no conforto da minha sala as boas produções nacionais “Trinta e Lixo”. E nem reconheci o Santoro no filme “As armas de Jane”.

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