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Com os olhos no retrovisor

O desejo de vingança ainda fascina mais Paulo Hartung do que a vontade de governar. Ele transformou em obsessão seu plano de aniquilar politicamente o ex-governador Renato Casagrande. Com os olhos grudados no retrovisor, Hartung continua fazendo ataques sistemáticos ao rival, como nos tempos de campanha. Ele age como um predador implacável, que só abandonará a presa depois que ela soltar seu último suspiro. 
 
O problema é que a estratégia está tendo efeito reverso. Cada vez que Hartung golpeia Casagrande, ele fica mais fortalecido.
 
A sensação dos observadores é de que Hartung subestimou Casagrande. Esses mesmos observadores, e incluímos Século Diário entre eles, também acreditavam, pouco tempo atrás, que na planície, vulnerável, o ex-governador seria facilmente liquidado pelo seu algoz. Aduzia-se a essa tese a debandada de parte dos seus aliados para o grupo rival, o que reduziria significativamente o poder de reação do socialista. 
 
Mas o mês janeiro se foi e essas previsões não se confirmaram. Mesmo, praticamente, sozinho, Casagrande tem mostrado uma capacidade impressionante de reação. Um verdadeiro instinto de sobrevivência.
 
Mas não há nenhum fenômeno por trás dessa reação. O segredo da sobrevivência política de Casagrande está muito mais na inépcia de Hartung, que custa a perceber que os ataques não estão sendo assimilados. Eles simplesmente estão batendo e voltando para o seu emissor. 
 
O erro de Hartung está na essência da estratégia. Durante a campanha, o peemedebista construiu um cenário de caos para mostrar ao eleitor que apenas ele seria capaz de devolver a capacidade de crescimento ao Espírito Santo. 
 
De carona na crise mundial e nacional que jogou um balde de água fria no espiral de consumo que boa parte da população vinha experimentado, Hartung não teve muito trabalho para consolidar o cenário apocalíptico que se prenunciava para o Estado. 
 
Espertamente, ele se apresentou como o “salvador da pátria” que já tinha tirado o Estado do buraco uma vez e que estava disposto a encarar novamente a missão para o bem dos capixabas. 
 
Funcionou. Parte dos eleitores acreditava que Hartung estava mais preparado para enfrentar o dragão da crise. A ponderação do eleitor que depositou seu voto no então candidato do PMDB era a seguinte: “Casagrande é esforçado, mas Hartung é mais experiente para enfrentar esse desafio”. 
 
Esse raciocínio, como mostraria mais tarde o resultado das urnas, prevaleceria, sobretudo, no interior do Estado, que tradicionalmente tem um eleitorado mais conservador. Entre a experiência de Hartung e a hipótese de dar mais um mandato para Casagrande, o eleitorado interiorano optou pela primeira opção. 
 
A lógica que orientou os votos no interior, porém, não se repetiu entre o eleitorado da Grande Vitória, que pôs na balança os retrospecto dos dois candidatos e decidiu dar mais um mandato ao socialista. Nessa decisão, pesou em desfavor de Hartung uma enxurrada de denúncias de corrupção que tiveram grande repercussão entre os eleitores da região metropolitana. No interior, essas informações chegavam truncadas. E entre o certo e o duvidoso, o eleitor do interior, sempre mais conservador, acabou sendo seduzido pelo vigoroso recall do peemedebista. 
 
Há um dado controverso nesse processo eleitoral. Os eleitores de Hartung, na sua maioria, aprovavam o governo Casagrande. As pesquisas de diferentes institutos foram consensuais ao apurar que o governo do socialista manteve sua aprovação acima dos 70%. 
 
É justamente esse dado que denuncia o erro estratégico de Hartung em atacar o ex-governador. O peemedebista não está atacando simplesmente a pessoa do socialista, mas todo o seu legado, que foi aprovado pela maioria da população capixaba.
 
Os ataques sistemáticos batem e voltam como um bumerangue porque o próprio eleitor do peemedebista não endossa o selo de incompetente e irresponsável que Hartung tenta colar em Casagrande. 
 
Em sua ideia fixa de aniquilar sumariamente o adversário socialista, Hartung não considerou que desconstruir um governo bem avaliado pela população não é uma tarefa tão simples. 

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