A saída do supersecretário Marcelo Zenkner da pasta de Controle Transparência causou uma espécie de “luto” ao governador Paulo Hartung (PMDB). Nessa quinta-feira (31), entre um elogio e outro ao secretário, era possível notar a expressão de desconsolo do governo. Afinal, Hartung, como ele gosta de dizer, tinha “planos maiores” para o promotor de Justiça.
E pensar que a descontinuidade de Zenkner como promessa de renovação do núcleo duro de Hartung viria justamente da conturbada Brasília. Não fosse a manobra desastrada do governo federal em tentar nomear para o Ministério da Justiça um procurador – nomeação que receberia logo em seguida o selo de ilegalidade do Supremo Tribunal Federal (STF) e causaria um efeito dominó -, ninguém impediria por aqui que Zenkner construísse uma longa e promissora carreira no governo.
Apesar do revés irremediável, Hartung se ocupou nos últimos dias de fechar com chave de ouro o ciclo prematuro de Zenkner à frente da Secont. O governador criou as condições para o supersecretário poder apresentar suas “entregas” mesmo que estágio inconcluso e ainda inconsistentes.
A Gazeta, na edição de quinta (31), dia derradeiro de Zenkner na equipe de Hartung, trabalhou com presteza no projeto de consagrar o secretário como autoridade máxima no combate à corrupção no Estado. O jornal destacou na capa, com o selo exclusivo: “Mais de 60 empresas são investigadas por fraude em licitação”. A reportagem dedicou duas páginas ao “furo” para mostrar que há um jogo de cartas marcadas nos processos de licitação, 28 deles na área de Saúde. Os casos foram seletivamente analisados a partir de 2014 – último ano do governo Renato Casagrande (PSB).
Isso dá margem para deduzir que a corrupção descoberta pelo supersecretário foi incubada, logicamente, no governo anterior. As denúncias, aliás, são oportunas. Devem servir de extrato para outras manobras em curso na Assembleia contra o governo anterior. Como se sabe, os deputados estão prestes a votar as contas do governo Casagrande. As denúncias da Secont se somam à CPI dos Empenhos, outra cilada armada pelo governo, justamente na área da Saúde, para “provar” que houve ilegalidades na gestão do antecessor, embora o Tribunal de Contas do Estado tenha aprovado as contas de Casagrande.
Manobras políticas à parte, voltando à reportagem, embora indícios de corrupção em processos licitatórios sejam, lamentavelmente, notórios na administração pública, fica patente que Hartung idealizou a Secont, sob o comando de Zenkner – um jovem promotor de Justiça acima de qualquer suspeita -, para funcionar como braço publicitário de um governo que quer aproveitar a onda Sergio Moro para também se notabilizar como exemplo de gestão proba, ética e moderna, no sentido de se fazer política com P maiúsculo. Uma gestão que reúne tudo aquilo que permeia hoje o inconsciente coletivo de parte significativa da sociedade, que elegeu a corrupção (e o governo do PT) como o câncer de todos os problemas que afetam o País.
Ora, não é razoável que Hartung queira credenciar a Secont como um órgão autônomo, com plena independência para investigar e punir qualquer ato de corrupção, seja de agentes públicos do próprio Estado e de empresas que operam com o governo, doa a quem doer. Tudo mundo sabe que não é assim que a banda toca.
Por mais que a mídia corporativa se esforce para legitimar ações marqueteiras como as apresentadas pela Secont nessa quinta-feira, é muita viva a disputa eleitoral de 2014, que trouxe à tona denúncias graves de corrupção envolvendo o governador Paulo Hartung. Ou alguém se arriscaria a pôr a mão no fogo para isentar os dois mandatos de Hartung de qualquer suspeita de corrupção?
Esse mesmo governador que defende agora a política da tolerância zero à corrupção, ainda não explicou as denúncias feitas na Justiça pelo PSOL.
Para um governo que quer se consagrar como inimigo número 1 no combate à corrupção, seria de bom tom vir a público para explicar o patrimônio omitido à Justiça Eleitoral, assim como as transações obscuras da empresa Éconos, que prestou consultoria a diversas empresas que operavam com o governo.
Combater a corrupção seletivamente é fácil.

