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Consultoria ou lavanderia?

Os fatos levantados pela reportagem de Século Diário sobre as operações da Éconos reúnem evidências de sobra para deduzir que a empresa de consultoria do ex-governador Paulo Hartung e do seu ex-secretário de Fazenda, José Teófilo, funcionava como uma “lavanderia”. 
 
Não é segredo para ninguém que o foco da gestão de Hartung, durante os oito anos em que esteve no comando do Estado, sempre foi voltado para os meios empresariais. O próprio Hartung se orgulha do título de governador desenvolvimentista. O homem que abriu as portas do Estado (a qualquer custo) para as grandes empresas. 
 
Essa relação entre o ex-governador e o setor empresarial, porém, nunca foi transparente, talvez para não deixar rastros. Havia pistas, mas faltavam evidências concretas que pudessem imbricar o ex-governador em transações ilegais (ou, no mínimo imorais) com “empresas-amigas”. 
 
Hartung sempre tratou as “facilidades” concedidas ao setor empresarial —incentivos fiscais, licenças ambientais a toque de caixa e outros “mimos” — como estratégias necessárias para atrair e manter os grandes empreendimentos no Estado. 
 
O caso da Éconos, no entanto, desvelado na reportagem, mostra que essa relação com os empresários pode ter se misturado a interesses particulares do ex-governador. Se faltavam evidências, agora sobram. É o ex-governador, na condição de candidato ao governo do Estado, que terá de explicar ao eleitor as turvas operações da consultoria com os grandes grupos instalados no Estado. Os pagamentos feitos à Éconos, valores redondos e recorrentes, dão margem para cogitar que havia uma espécie de “mensalinho” nessa relação entre a consultoria e as empresas-clientes.
 
O nascimento da sociedade com Teófilo começou de maneira despretensiosa. Quando deixou o governo, em 2010, Hartung reivindicou para si o título de intelectual do Espírito Santo. Avisou que passaria a fazer palestras com o intuito de dividir todo o seu saber acumulado nestes anos de vida pública. Disse também que estava se associando ao ex-secretário de Fazenda e amigo José Teófilo, com quem tocaria uma consultoria. 
 
À época, Hartung tratou a empresa como um pequeno negócio. O capital empregado na consultoria, R$ 5 mil de cada sócio, dava a dimensão “modesta” do negócio. Em três anos, porém, o “singelo” escritório de negócios movimentou cerca de R$ 6 milhões. 
 
Não por coincidência, a promissora carteira de clientes da consultoria era formada pelas mesmas empresas que haviam sido, de alguma maneira, beneficiadas por seu governo. Empresas que sempre tiveram relação estreita com Hartung, se colocando como aliadas do governo. Algumas eram ou ainda são (a prestação de contas final que os candidatos têm de entregar ao TSE ainda não foi fechada) contumazes doadoras de campanha do ex-governador. 
 
O ex-governador tem a obrigação de explicar ao eleitor, ainda mais porque pretende governar novamente o Estado, as operações da Éconos durante os três anos em que esteve na sociedade. Ele precisa provar que todas essas consultorias prestadas foram legais. Difícil será provar que essas operações, além de legais foram éticas e morais. 
 
As explicações não são facultativas. Engana-se o ex-governador se pensa que poderá recorrer à estratégia do silêncio. Ele não pode ficar impassível aos fatos. É Paulo Hartung que precisa provar ao eleitor que a consultoria não era “lavanderia”. 

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