Como se esperava, quem vai pagar a conta da negociação salarial entre empresas e motoristas e trocadores de ônibus, a partir deste domingo (14), serão os 17 milhões de passageiros que se valem todo mês de um serviço precário prestado pelo Transcol: superlotação em horários de picos, quando o desconforto em dias abrasadores do verão torna-se excruciante, atrasos dos ônibus e mudanças inesperadas de itinerário.
Aos empresários foi apresentada uma conta de 3%, relativa à majoração dos salários, mas – sabe-se lá por que desígnios misteriosos que talvez só o ano eleitoral seja capaz de explicar – eles foram premiados com um benevolente aumento das tarifas: 6,25%. Ou seja, mais que o dobro do que eles deram aos seus empregados. E para que fique bem claro que a generosidade com o dinheiro dos usuários do Transcol é excessiva, esse percentual é maior do que a inflação oficial de 2017, que foi de 2,95%.
Há quem diga que o custo atual da passagem de ônibus poderia ser reduzido em 20%, as empresas continuariam lucrativas e ainda sobrariam – por que não? – bons trocados para bancar campanhas eleitorais de políticos amigos. A verdade, porém, parece estar um pouco mais além de todos os dissabores que os afortunados empresários do transporte coletivo urbano causam aos passageiros, em sua persistente e bem sucedida busca de uma rentabilidade cada vez maior: permanece inviolável e resistente a mais remota tentativa de aproximação à “caixa-preta” do sistema gerenciado pela Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória (Ceturb-GV).
A nenhum deputado estadual, faça parte ou não da Comissão de Infraestrutura, de Desenvolvimento Urbano e Regional, de Mobilidade Urbana e de Logística, ocorreu prestar inestimável serviço aos seus eleitores nos sete municípios da Grande Vitória servidos pelo Transcol, investigando e comparando os custos operacionais das empresas com as receitas obtidas.
Os números, em princípio, estariam facilmente ao seu alcance no Conselho Gestor dos Sistemas de Transportes Públicos Urbanos de Passageiros da Região Metropolitana da Grande Vitória (CGTRAN), que decide sobre os preços das passagens de ônibus. A omissão dos parlamentares, porém, é auto-explicativa. Afinal, não se investiga potenciais investidores de campanhas.
O Ministério Público de Contas (MPC), que mais de uma vez questionou aumentos de passagens, está no rastro de possíveis ilicitudes do sistema Transcol/Ceturb há anos, mas sem chegar a qualquer resultado. A última tentativa de maior abrangência por parte do MPC, para lançar luz sobre ele, foi em 2014, quando o governo Renato Casagrande realizou concorrência eivada de suspeições, através da Secretaria de Estado dos Transportes e Obras Públicas (Setop).
Divididas em dois consórcios – Atlântico Sul e Sudoeste –, as mesmas empresas que há anos vinham prestando esse serviço na Grande Vitória ganharam o privilégio de continuar a explorar o transporte coletivo por 25 anos, com a expectativa de arrecadar R$ 13,6 bilhões. E não se falou mais do assunto.
De lá pra cá, as empresas só aumentaram seu patrimônio através das majorações anuais de tarifas, num total de 34,61%, mas não cresceram, ao longo do período, a satisfação e o conforto dos passageiros.

