O ex-secretário da Fazenda Maurício Duque e a atual titular da pasta, Ana Paula Vescovi, travaram uma verdadeira batalha de números na tarde desta sexta-feira (31). Independentemente da divergência numérica apresentada pelos dois economistas, ficou patente que a estratégia do governo era interpretar o balanço fiscal 2014 a partir do viés político. Os argumentos da secretária foram cuidadosamente construídos com a intenção de responsabilizar o governo de Renato Casagrande por “barbeiragens” cometidas contra as finanças do Estado
Duque até se esforçou para rebater os números de Ana Paula. Sua missão era convencer os jornalistas presentes à coletiva que a nova titular da Fazenda recorrera a uma “contabilidade criativa” para desconstruir os números do governo socialista.
O ex-secretário poderia ficar uma semana tentando explicar que “focinho de porco não é tomada. Seria em vão. Simplesmente porque a proposta do governo não era tratar tecnicamente os números. Para Hartung, a campanha ainda não acabou. O balanço era uma oportunidade única de fazer o linchamento final de Casagrande.
Essa obsessão em aniquilar seus adversários é quase uma psicopatia de Paulo Hartung. O discurso republicano é da boca pra fora. A vontade de vingança fala mais alto. Ele não podia deixar o adversário que ousou confrontá-lo durante a campanha passar incólume. Para Hartung, a punição nesses casos deve ser exemplar. Além do mais, condenar o antecessor pela sua incapacidade de gerir as contas do Estado é uma questão de coerência. Afinal, esse foi o mote de campanha que assegurou a difícil eleição do peemedebista.
Os antecedentes dessa estratégia foram premeditadamente incubados há quase um ano. Em março do ano passado, Ana Paula Vescovi e Haroldo Rocha (secretário de Educação), então assessores do senador Ricardo Ferraço (PMDB), produziram para Paulo Hartung um estudo que semearia a “teoria do caos”.
É tudo tão previsível. Os argumentos levantados há quase um ano são bastante semelhantes aos usados hoje (30) pela economista para mostrar que Casagrande foi o responsável por jogar a economia do Estado na UTI, ou seja, o discurso já estava pronto desde março de 2014.
Mais à frente, em maio, Hartung usaria o estudo como passaporte para sua entrada na corrida eleitoral. Na carta que ele escreve ao PMDB se “oferecendo” como candidato, Hartung deixa claro que o retrocesso econômico do Estado o compelia a aceitar a missão de “salvar” o Espírito Santo. O argumento serviria também para justificar a quebra do pacto da unanimidade — que asseguraria a reeleição ao socialista — isentando-lhe da pecha de traidor.
Sem encontrar pontos vulneráveis no adversário, os estrategistas da campanha do peemedebista acolheram esse mesmo mote para desconstruir a imagem do governo de Casagrande.
Deu certo. Hartung convenceu o eleitor que o Estado parou de crescer com Casagrande, e que ele seria capaz de recolocar o Espírito Santo nos trilhos e recuperar o ciclo virtuoso conquistado nos seus dois governos (2003 -2010).
Enganou-se, no entanto, quem pensou que os ataques a Casagrande cessariam com a vitória nas urnas. Haroldo Rocha, coordenador da equipe de transição de Hartung, fez tudo, menos a transição. Sua missão, como mensageiro do caos, era pintar o quadro mais apocalíptico sobre as finanças do Estado, mesmo que para isso fosse necessário recorrer à “criatividade”.
Muitos acreditavam que o ciclo de perseguição a Casagrande finalmente se encerraria no momento em que o socialista transmitisse a faixa ao sucessor. Ledo engano, ora Hartung, ora Ana Paula, sempre que têm uma oportunidade, aproveitam para dar uma estocada no governo Casagrande.
No balanço fiscal não foi diferente. Esses antecedentes dão margem para acreditar que, independentemente da batalha dos números, é mais plausível considerar que Ana Paula recorreu à “contabilidade criativa”, como disse Duque, para atender os caprichos do chefe.

