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Corresponsável

Não bastassem os incentivos do poder público durante o processo de implantação da Aracruz Celulose (Fibria) no Espírito Santo, que resultou na destruição da Mata Atlântica e na usurpação dos territórios tradicionais do norte capixaba, o governo do Estado continua dando vazão à ânsia da empresa por terras para ampliar seus já extensos e danosos plantios de eucalipto no Espírito Santo. 
 
O acordo firmado com a empresa desde 1985, que acaba de ser renovado pela Secretaria de Estado de Agricultura (Seag) até 2015, com muita pompa e circunstância, como manda o figurino, é demonstração clara de que como o governo incentiva e aplaude o avanço da monocultura praticada pela Aracruz, ignorando seus inúmeros impactos ambientais, sociais e econômicos. 
 
Sem ter como se expandir nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, que formavam o antigo território de Sapê do Norte, onde 83% da área agrícola já são ocupadas por eucaliptos, a estratégia da empresa é avançar sob as pequenas propriedades. E conta, para isso, com o apoio do governo do Estado que, ao invés de fiscalizar e punir a Aracruz por seus impactos e histórico de violações, oferece espaço ideal para que a empresa realize sua propaganda verde. 
 
A doação de quatro milhões de mudas de eucalipto pela Aracruz para “projetos de silvicultura” é vendida pela empresa e pelo governo como um projeto que vai “reflorestar” e “reduzir as áreas degradadas” no Estado. A ponto de o secretário de Estado da Agricultura, Ênio Bergoli, declarar que se trata de uma “atividade conservadora de recursos naturais e do meio ambiente”.
 
Uma enorme contradição e, no mínimo, deboche. Pois a empresa que promove o desmatamento, torna o solo infértil e consome elevada quantidade de água, é a mesma que aparece com pinta de responsável para a sociedade e como solução para os problemas ambientais que ela mesmo gera no Estado. Uma piada de mau gosto.
 
Desde o início da parceria, já foram doadas 70 milhões de mudas pela empresa. Ou seja, as áreas agricultáveis que ainda restam no Estado, ao invés de serem destinadas à produção de alimentos saudáveis, que não utiliza agrotóxicos, passam a servir à Aracruz, que vai obter ainda mais lucro e gerar muito mais prejuízos ao Estado. E o pior, com o apoio do governo, que não faz parcerias semelhantes e muito menos investimentos na agricultura orgânica.
 
Saudades do tempo do naturalista Augusto Ruschi (falecido em 1983), que enfrentou governos biônicos, do tempo da ditadura, no sentido de evitar a tragédia que o Espírito Santo vive com a Aracruz. Ninguém definiu melhor do que ele a atividade da empresa em solo capixaba: deserto verde. Para Ruschi, nunca foi reflorestamento. Mas sim, matéria-prima. Exatamente como é.
 
Ruschi estava tão certo, que em recente levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), muito bem analisado pelo articulista de A Gazeta, professor e especialista em políticas públicas Roberto Garcia Simões,  o Estado figura no ranking com o pior índice de Mata Atlântica do Sudeste: 3,7%.  Aí está a bela contribuição da Aracruz.
 
E do que adianta as entidades do campo, revoltadas, esbravejarem contra o governo e essa parceria? O governo não as ouve. Já definiu seu lado. 
 
Ao ser omisso na questão e ainda contribuir para a propagação de um desenvolvimento que tanto mal fez e ainda faz ao Espírito Santo, o governo e o secretário Ênio Bergoli, além de todos os demais representantes do poder público que não cumprem seu papel, nada mais são que corresponsáveis.  Deveriam, assim como a Aracruz Celulose, responder por tamanha degradação.

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