A chamada imprensa corporativa e lideranças políticas solidárias ao governador Paulo Hartung (PMDB) armaram um contragolpe para cima dos movimentos sociais que ocuparam, registre-se, pacificamente, por cerca de 10 horas, a sede do governo capixaba nesta terça-feira (8). Os militantes só aceitaram deixar as dependências do Palácio Anchieta após o comitê de crise formado pelo governo prometer uma agenda dos movimentos com o chefe do Executivo estadual. A reunião ficou marcada para o dia 28 próximo. A conferir se o governo vai mesmo cumprir sua parte.
Logo após os militantes deixarem o Palácio, o gabinete de crise voltou a se reunir para traçar um plano. A ideia era tentar mitigar os estragos do protesto à imagem do governador. Afinal, a ocupação expôs o perfil autoritário deste governo, que sempre se mostrou avesso ao diálogo com os movimentos sociais nos seus dois primeiros mandatos, e neste terceiro não tem sido diferente.
Quem ingenuamente acreditou que o mote da campanha “Abraça o Paulo” seria incorporado como marca social deste governo nesta terceira edição do seu governo, enganou-se redondamente.
Durante todo o ano passado, o que os movimentos sociais e sindicais mais fizeram foi buscar abrir um canal de diálogo com o governo. Esforço em vão. Como nos seus dois primeiros mandatos, Hartung deixou claro que sua roda de interlocução segue restrita aos “notáveis” que fazem parte da ONG Espírito Santo em Ação. Uma elite de empresários considerada a célula pensante deste governo.
Ironicamente, o grande trunfo da campanha vitoriosa de Hartung ao governo, que viria como contrapartida às negligências cometidas contra a área social nos seus dois primeiros mandatos, seria justamente as ações planejadas para a educação. Hartung queria se notabilizar como um governo preocupado com o social e escolheu a educação como porta de entrada.
Bolou o plano a portas fechadas com seus pares da ES em Ação. A ideia era fazer muito barulho com pouco dinheiro. O pulo do gato foi aderir ao programa Escola Viva, espalhar algumas vitrines do novo produto Estado afora, suficientes para convencer a população de que Hartung, sempre um gestor de vanguarda, estava entregando ao povo o que há de mais avançado em termos de educação no País. Desenrolar a parte burocrática do plano seria simples. Para canalizar investimentos para as vitrines do Escola Viva era necessário enxugar os gastos nas “escolas chatas”, como classificou o “resto” das unidades da rede o secretário de Educação Haroldo Rocha. Depois era só “carimbar” o programa na Assembleia e correr para o abraço.
Foi exatamente neste ponto que o governador passou a ter uma surpresa atrás da outra. Deparou-se com um deputado, Sérgio Majeski (PSDB), que conhece o tema educação de trás pra frente e não teve receio em criticar o programa carro-chefe do governo. Foi mais longe, Majeski visitou mais de 100 escolas da rede e mostrou que não havia cabimento o governo implantar meia-dúzia de escolas em tempo integral enquanto boa parte das unidades da rede padecia de carências de toda ordem: de teto caindo sobre os alunos à falta de material didático e transporte escolar. Só para citar as urgências mais graves.
Mas a “revolução na educação” empreendida pelo governo não parou por ai. A parte mais perversa do plano, que levou o nome de “reorganização” — conhecido também como cortes de gastos —, previa o fechamento de turnos, turmas e escolas. A lógica defendida pelo secretário Haroldo é simples: onde frequentam 20, frequentam 40 ou 50 alunos. Por que não juntar turmas e economizar, cortando escolas e professores pela metade? Alguém vai perguntar: E a qualidade? “Isso não é problema. Estamos fechando as escolas chatas mesmo”, justificaria o secretário.
Mas o governo foi ainda mais longe. O secretário, sem discutir com a comunidade escolar, e apenas olhando para as planilhas de contabilidade com a calculadora na mão, decidiu que a tradicional pedagogia da alternância deveria ser extinta. Motivo: pagar professor para ensinar em sala de aula e em atividades complementares ligadas à formação do aluno que vive no campo, especialmente nos casos dos assentamentos, foi interpretado como um gasto supérfluo. O governo decretou o fim da pedagogia da alternância e advertiu: “Só pagamos as atividades dentro de sala de aula e não se fala mais nisso”.
Como não poderia ser diferente, os movimentos sociais do campo, sobretudo o MST e MPA, vieram bater na porta da Secretaria da Educação em busca de explicações do secretário para a mudança autoritária.
Deram com a cara na porta, mas não arredaram os pés das dependências da Sedu. Há mais de três semanas eles aguardam uma audiência com o secretário, que tem tentado vencer os militantes pelo cansaço.
Na tarde dessa terça-feira (8), em meio aos atos pelo Dia Internacional da Mulher, os movimentos sociais entenderam que o jeito era levar a montanha a Maomé, que na versão capixaba da história sempre subestimou os movimentos sociais.
O governo foi pego no contrapé. A “montanha” ocupou pacificamente e de forma inesperada e organizada o Palácio Anchieta. A estratégia era pressionar o governo a apresentar uma agenda para tratar a pauta de reivindicações dos movimentos, encabeçada pelo fim da pedagogia da alternância e o fechamento de escolas no campo e cidade. Deixaram o Palácio depois de quase 10 horas de negociações, com a promessa de que a reunião com o governador acontecerá no dia 28 próximo.
Toda a repercussão do episódio de ocupação tratada na imprensa capixaba, especialmente no jornal A Gazeta, tem o intuito de criminalizar o movimento e associá-lo aos últimos acontecimentos envolvendo o ex-presidente Lula, o PT e o governo federal. Como se a ocupação, último recurso dos militantes ante a falta de diálogo com o governo, fosse uma prévia do que as “pessoas de bem” podem esperar nas manifestações contra Lula, Dilma e PT marcadas para o próximo domingo (13). Se a ideia era acirrar o clima, o jornal conseguiu.
Nos textos publicados em A Gazeta (09/03/16) fica explícita a intenção de criminalizar a ocupação. O editorial (Invasão inaceitável), que exprime a opinião do jornal, vai além. “Não há como dissociar a radicalização desse movimento do momento político que o País vive”. De forma leviana, o artigo crava mais à frente: “Possivelmente, os manifestantes foram inspirados por recentes manifestações do presidente Lula e do líder do MST José Rainha”. E finaliza em tom de indignação: “A invasão do Palácio é um desrespeito ao governo e à sociedade. É inaceitável”.
Inaceitável mesmo é o jornal se prestar ao serviço de criminalizar um movimento legítimo, que tenta abrir um diálogo com o governo há mais de ano. Mas até agora seguiam esquecidos há mais de três semanas no estacionamento da Sedu à espera de uma agenda com inatingível secretário de Educação, que os ignora solenemente.
A ocupação poderia ser evitada se esse governo fosse verdadeiramente aberto ao diálogo. É preciso registrar que neste primeiro ano de governo outros movimentos sociais e sindicais já buscaram o diálogo com o governo sem sucesso. Sem contar que os próprios deputados estaduais, por mais subservientes ao Executivo que sejam, ensaiaram um início de rebelião, com a tentativa de formação frustrada de blocão. Um dos principais intuitos do grupo era ser ao menos ouvido pelo governo, que se mantém refratário a qualquer tentativa de diálogo que não contemple algum interesse para seu arranjo político-institucional.
Os deputados não tiveram a mesma coragem dos movimentos sociais, que foram determinados e conquistaram a prerrogativa de ocupar o assento à cabeceira da mesa de negociações de agora em diante. Se o governador tinha essa prerrogativa, deixou escapar com a sua intransigência.

