Quem leu a entrevista de Luciano Rezende (PPS), publicada no jornal A Gazeta (4/01/2016), ou assistiu à versão televisiva da entrevista no Bom Dia ES, da mesma empresa de comunicação, deve ter se perguntado se o prefeito estava se referindo mesmo à capital capixaba ou a cidades como Genebra, Oslo ou Zurique – conhecidas mundialmente por ostentarem indicadores socioeconômicos invejáveis.
Pelo menos é essa a impressão que se tem quando se ouve o prefeito fazer um balanço dos três anos de sua gestão. O prefeito parece ter sido acometido por uma “crise de alucinação” praticamente durante toda a entrevista. Sem resultados concretos para apresentar, Luciano passou a destacar “resultados” subjetivos de sua gestão, que não podem ser mensuradas. Perguntado se havia cumprido a promessa da propalada mudança, seu principal mote de campanha, respondeu, sem modéstia: “Completamente. (…) transformamos Vitória numa cidade mais organizada, mais segura e mais humana. Cem por cento disso foi cumprido”.
A exaltação às conquistas na área de segurança foi quase um desvario: “Ela [Vitória] virou uma cidade absolutamente segura”.
Ora, afirmar que Vitória é “ab-so-lu-ta-men-te segura” chega a ser uma afronta ao morador da capital. É verdade que houve uma redução nos índices gerais de homicídios, não só em Vitória como em todo o Estado, mas daí a afirmar que se vive com segurança plena na capital capixaba há um abismo colossal.
Por isso, a impressão que se tem lendo a entrevista é de que o prefeito governa, por exemplo, Zurique. Só pode ser. Ai faria algum sentido a afirmação. A taxa média de homicídios por 100 mil habitantes na cidade suíça é inferior a um. Em Vitória, essa taxa em 2015 (falta fechar dezembro) é 20 vezes maior. Sem falar nos furtos, roubos e outras modalidades de violência que já fazem parte do cotidiano do morador da capital.
Já que o parâmetro é subjetivo, a percepção da população não corresponde à avaliação de Luciano, ou será que o morador de Vitória pode sair do banco contando dinheiro, andar despreocupado a qualquer hora do dia ou da noite na Praia do Canto, no Morro da Penha ou na Ilha do Príncipe? Ou alguém em sã consciência se sente “ab-so-lu-ta-men-te” seguro para levar a sério a avaliação do prefeito?
O rompimento com a realidade não se restringiu somente à avaliação da gestão, Luciano também tentou passar aos leitores que a relação política do Executivo com o Legislativo vai muito bem obrigado. Estamos todos delirando ou o Orçamento 2016 foi aprovado no apagar das luzes. A sessão do dia 30, penúltimo dia do ano, revelou o desgaste entre os dois poderes e confirmou que o prefeito já não tem mais a maioria na Câmara. A aprovação do Orçamento acabou saindo nos descontos da prorrogação, mas foi sangrenta, dando uma pista de que a vida do prefeito não será nada fácil no parlamento em 2016 que, para piorar, é ano eleitoral.
Houve desvario também no momento em que Luciano passou a avaliar a relação dele com o Palácio Anchieta. É público e notório que o governador Paulo Hartung quer aniquilar o prefeito, mas Luciano insistiu em dizer que, da parte dele, não tem problema com o governador. Acrescentou, comentando sobre uma iminente pressão do governador para desestabilizá-lo na Câmara. “(…) Formar tropa de choque não é meu estilo. Sou pessoa radicalmente democrático e republicana. Aceito críticas e as uso para meu crescimento”.
Outra análise apartada da realidade. Em todas as prestações de contas que fez na Câmara, o prefeito se mostrou intolerante às críticas. Muito ao contrário, Luciano sempre jogou na defensiva. Não aceitava que sua gestão fosse criticada pelos vereadores. O “radicalmente” até cabe, mas não para defini-lo como democrático e republicano. Está mais para arrogante e presunçoso.
O final da entrevista dá mais uma pista do grau de alucinação do prefeito. “A minha força está na minha humildade”

