Desde o primeiro dia de janeiro de 2015, quando o governador Paulo Hartung (PMDB) assumiu o comando do Espírito Santo pela terceira vez, a política de austeridade do novo governo passou a ser uma realidade para os que vivem em terras capixabas. De maneira velada, para não causar alarde, a guilhotina do governo foi regulada para fazer um corte linear de 20% nas despesas de todas as secretárias e autarquias.
Apesar dos cuidados do governo para esconder os cortes, a Segurança Pública foi a primeira secretaria a acusar o golpe. Os próprios policiais se queixavam que havia racionamento de combustível para as viaturas, o o que estaria prejudicando o policiamento ostensivo.
À ocasião, o secretário de Segurança André Garcia negou que os cortes estivessem comprometendo o policiamento. O governo percebeu que a publicidade seria a estratégia mais eficaz para abafar as notícias negativas. Para pôr fim à polêmica, o governo do Estado passou martelar em campanhas bem produzidas que as taxas de homicídios estavam em queda livre como não se via fazia décadas.
A estatística fria — um amontoado de gráficos e números vulneráveis a manipulações que quase sempre não convence — ganhou a companhia de uma campanha emotiva que pedia para as pessoas “compartilharem o bem”. Era a estratégia para tentar criar uma atmosfera que se encaixasse no resgate da paz e devolvesse à população a percepção de que a violência estava sendo derrotada. Funcionou. Ninguém mais questionou os cortes de gastos na segurança nem tampouco cobrou investimentos em políticas públicas de combate à violência.
Apesar da ficção veiculada pelas campanhas publicitárias, o Espírito Santo continua sendo um estado violento. A taxa de homicídios em 2015 esteve na casa dos 37 homicídios por 100 mil habitantes — quase quatro vezes a taxa (10/100 mil) a partir da qual a ONU classifica a violência como epidêmica.
O professor Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador de estudos sobre Segurança Pública da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em entrevista ao jornal O Globo (16/11/16), faz uma relação entre os efeitos da crise e o aumento da violência.
Waiselfisz afirma que os caixas vazios têm levado os estados a cortar gastos na segurança. “Alguns estados estão sem dinheiro para pagar a gasolina para patrulhar, para repor as saídas por aposentadoria e outros motivos”. Ele alerta que vai haver um enxugamento nos quadros e uma crise nas atividades de repressão e prevenção em muitos estados.
O responsável pelo Mapa da Violência, principal estudo sobre o tema no Brasil, afirma que comprovadamente a crise econômica incrementa a criminalidade. O professor adverte, porém, que a violência, num primeiro momento, não se reflete nos crimes contra a vida, mas nos delitos contra o patrimônio. Mas ele pondera que essa violência poderá ser percebida nas estatísticas de homicídios mais à frente.
Waiselfisz também apresenta mais um dado que confirma a interpretação nos números da violência nos últimos anos no Espírito Santo. Segundo o professor, o Mapa da Violência apontou que o índice de homicídios de homens brancos reduziu em todo o País nos últimos anos — inclusive no Espírito Santo —, mas ele adverte que o de negros aumentou ou simplesmente permaneceu estacionado. Ele conclui que as políticas públicas de segurança são altamente excludentes, ao proteger as zonas de maior riqueza em detrimento das áreas mais vulneráveis à pobreza.
Essas distorções não aparecem nas estatísticas de homicídios divulgadas pelo governo em gráficos coloridos ou tampouco nas peças publicitárias que exibem um Espírito Santo quase suíço.

