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Sexta, 23 Outubro 2020

Crônica de tragédia (não) anunciada em Cachoeiro

Cachoeiro viveu esta semana a maior cheia de sua história provocada pelo rio Itapemirim. Rio de tantas tragédias, historicamente, sem dúvida, foi a maior: ganhou oito metros em seu volume atingindo casas, prédios, pontes, bairros e ruas no nível do rio. O centro, onde se localiza o prédio da prefeitura, era a imagem da desolação. A praça Jerônimo Monteiro recebeu três metros de água. Não se podia mais repetir, romanticamente, Rubem Braga: “E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso porão, e me lembro que nós, os meninos, orcianos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim”. Isto hoje seria ironia. 


O teatro Rubem Braga quase foi ao chão. Assim também como a Casa dos Braga sofreu sérios prejuízos. No geral, são três mil pessoas entre desabrigados e desalojados, escolas sem aula, hospitais suspenderam cirurgias eletivas. Mais de 560 estabelecimentos comerciais afetados, gerando prejuízo estimado em aproximadamente R$ 120 milhões. Praticamente todas as principais pontes da cidade com avarias. Trânsito traduzindo a figura do caos. As pessoas saindo de casas empurradas pelas águas. Em resumo, cena cruel e patética de terra arrasada.  


O prefeito Victor Coelho (PSB), enquanto cuidava da situação em todo o município, foi surpreendido com a invasão das águas na sua própria residência, já que mora próximo ao rio, mais especificamente na rua Dr. Deolindo, no bairro Baiminas, próximo ao centro da cidade. 


O cenário produz especulações que fazem lembrar o velho professor João de Deus Madureira Filho, amante do rio, que profetizava suas verdadeiras tragédias, em razão do desequilíbrio ecológico. Há uma pergunta no ar: a barragem Francisco Gros, conhecida como “Barragem São João”, no município de Alegre (sul do Estado), responsável pelo acúmulo de águas no Itapemirim, foram acionadas adequadamente? A possibilidade de rompimento causou pânico. 


Segundo os especialistas, “a barragem nunca correu risco de rompimento”. Tudo ainda é muito confuso e necessita de apuração competente e isenta. Sobretudo porque paira ainda um clima de “tudo pode acontecer novamente”.  A barragem é monitorada através de satélites, em Florianópolis (SC). 


O prefeito, premido pelas circunstâncias, decretou estado de calamidade pública durante a semana. Relatórios estão sendo feitos em busca de recursos estaduais e federais. Victor Coelho contou com o apoio do governador Renato Casagrande, que é de seu partido e uma espécie de guru político. 


Diante da situação de calamidade, o renomado advogado Sérgio Bermudes, que é cachoeirense, liberou a quantia de R$ 1 milhão para acudir o sofrimento de seus conterrâneos. O dinheiro está sendo aplicado nas coisas mais urgentes, como alimentação, colchões, materiais de limpeza, até mesmo auxiliando hospitais que tiveram os medicamentos atingidos pela cheia do rio.


O momento ainda não permite uma avaliação concreta sobre a recuperação da cidade, mas a previsão é que isso só acontecerá num prazo mínimo de seis meses. A recuperação, embora rápida, está no começo. A cidade, invadida pela água, mostra um retrato de máquinas, poeira e homens trabalhando. Nas casas, há muitas pessoas tentando recuperar o que perderam, e se desapegando do que perderam. A solidariedade é a palavra-chave em todos os gestos. 


Não pode se esquecer, a par da situação de calamidade, que este ano é um ano eleitoral e o prefeito é pré-candidato à reeleição. Tudo passou a ser uma coisa nova, que vem se revelando gradativamente através da tragédia.  


(Com colaboração de Filipe Benevides Mendonça, graduando em Direito pela Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim - FDCI).

 

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