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Segunda, 18 Janeiro 2021

Cuarassy Guará

Meu primo era uma pessoa fácil de gostar, conhecia muita gente, com ele aprendi e, certamente, ele também aprendeu comigo. Nos dávamos bem, sua vida foi marcada, no entanto, por uma tragédia em seu começo, o câncer que matou sua mãe, minha tia, e agora este assassinato covarde que ceifou a sua existência aqui conosco na Terra.

Me faz pensar, ou melhor, perceber, que a Vila de Itaúnas se encontra em franca decadência, lugar de que ele tanto gostava e em que aconteceu seu assassinato por um cara esquisito que nunca tinha ouvido falar. 

Este cara esquisito não é músico, é assassino, e que tinha comprado uma arma recentemente, e num enfrentamento físico com meu primo, logo sacou esta arma de fogo e efetuou os disparos, nas costas, que não deram chance de reação ou sobrevivência nesta última noite de sexta-feira, 18 de dezembro de 2020.

A família Medeiros e a família Del Nery estão em choque, no meu caso é a segunda vez que passo por uma tragédia familiar resultante de morte por assassinato por arma de fogo, pois meu irmão mais novo, Alex, morreu de tiros num assalto no Rio de Janeiro, em 8 de janeiro de 2015.

E agora recebo mais esta notícia chocante e revoltante, meu irmão tinha 24 anos, meu primo tinha 39 anos, vou fazer 39 e penso em como tudo é tão frágil e delicado. De como o mundo ainda é povoado por alguns covardes que causam tanta dor. Este assassino está para ser preso e espero que seja assim, que tudo seja feito dentro das regras do Estado de Direito.

Na família Medeiros, perdemos nosso segundo jovem adulto, primeiro foi minha tia Luciana, bem nova, de câncer, agora seu filho, Cuarassy, de 39 anos, num lapso, tudo muito rápido. Eu disse que não ia ver o tal vídeo, mas acabei vendo uns trechos sem querer, ao conferir uma reportagem de televisão pelo WhatsApp.

Conheço aquilo tudo, andei muito pela vila, lugar em que não piso nunca mais, não pelos moradores, mas pela memória que isto pode me suscitar daqui para a frente. A certeza é de que não vou mais para Itaúnas, é o terceiro homicídio na vila em poucos dias. É preciso atenção do poder público.

Disse que era fácil gostar de Cuarassy, e eu era um dos que me dava bem com ele, uma vida intensa, sem paradeiro, mas que estava em todos os lugares. Meu primo sabia viver, a capoeira foi sua escola, junto com a rua, nós nos juntávamos e formávamos uma amálgama.

Nossa relação se completava na identidade de família e de algumas semelhanças que nos unia, o sorriso frouxo dominava, algumas noites, algumas praias, a vida vivida e espontânea que nos guiava, este era o tipo de conhecimento comum do qual compartilhávamos.

Um dia vou te ver lá no céu, isso de certa forma me deixa sereno. Em meio de uma tragédia, esta imaginação fértil sobre a vida após a morte que me dá esperança de que nada tem fim.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog:
http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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