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Cúmplices

O canto da sereia da mídia corporativa persiste, ao longo das décadas, iludindo sucessivas gerações de capixabas. Com a postura questionável de quem já se acostumou a proclamar  desenvolvimento econômico e expansão do mercado de trabalho com base em números espetaculosos, ela anuncia em manchetes, periodicamente, um sonho que nunca se realiza. 
 
Se todas as lorotas sedutoras contadas pela mídia corporativa, desde que aqui aportaram, trazidas pela ditadura militar, empresas como a Aracruz Celulose (Fibria) e a Companhia Siderúrgica de Tubarão (ArcelorMittal), tivessem percentual mínimo de veracidade, o Espírito Santo já seria, a essa altura,  o paraíso do desenvolvimento e do pleno emprego. Não é, como todos sabem. O que essas empresas, junto com a mal-afamada Vale (antiga Companhia Vale do Rio Doce), trouxeram para os capixabas foi nada mais nada menos do que o pesadelo da poluição e da destruição ambiental. 
 
Tão grave quanto essas consequências deletérias é o fato de que,  sendo basicamente empresas exportadoras, são adicionalmente premiadas, via  Lei Kandir, por isenções do ICMS e, como tudo que é bom para elas pode tornar-se muito melhor, são contempladas também, por governos complacentes, com generosos incentivos fiscais que geralmente facilitam seus investimentos em outros estados. Sequer usam o sistema bancário capixaba, uma vez que  toda sua movimentação financeira é feita fora do Espírito Santo.  A Fibria tem sede em São Paulo, a ArcelorMittal em Belo Horizonte, e a Vale no Rio de Janeiro. 
 
O seu caráter predador permanece oculto porque a mídia corporativa fez-se aliada incondicional do governo do Estado nesse sistema de múltiplas perversidades. E por motivos óbvios: afinal, entre seus maiores anunciantes, estão exatamente as poluidoras. Interessa à mídia desagradar quem a alimenta com polpudas verbas publicitárias? Por outro lado, é do seu interesse informar à população que o governo do Estado, em meio a uma economia combalida, insiste em escancarar os cofres públicos para essas e outras empresas, abrindo mão de arrecadar R$ 4,62 bilhões, através da concessão de incentivos fiscais no período de 2017 a 2020?
 
Os tentáculos das empresas são de tal modo extensos e envolventes que até a Feira do Verde –  evento anual que em princípio deveria ser instrumento de mobilização de consciências em torno de questões como a poluição e a devastação ambiental no Estado – recebe delas  patrocínio financeiro e acaba por  lhes servir de palco para projetar uma imagem enganosa ao público, esvaziando, portanto, de significado uma iniciativa que tinha tudo para servir aos legítimos interesses dos capixabas. 
 
A modernidade se torna atraso e avança em direção a um estado de anomalia em que regras básicas de proteção ao ser humano e ao seu ambiente são abolidos em nome da maximização dos lucros. 
 
Como se viu por cincos décadas no norte e depois no noroeste do Estado, as plantações de eucaliptos da Fibria gradativamente substituíram o que restava da Mata Atlântica e sitiaram produtores rurais, empobrecendo milhares de famílias e promovendo o êxodo rural em direção às cidades, onde se incorporaram às populações de baixa renda das periferias urbanas. 
 
Córregos desapareceram e rios foram envenenados pelos agrotóxicos utilizados nos eucaliptais, afetando drasticamente a agricultura. Exemplo dramático da desarticulação social e econômica no cenário de enriquecimento brutal de uma empresa, Conceição da Barra possui hoje 90% da sua área agrícola ocupada por eucaliptos. Enquanto isso, a Fibria encerrou o ano de 2016 com lucro líquido de R$ 1,664 bilhão, um crescimento de 365% em relação a 2015. 
 
Hoje, o Espírito Santo não passa de um enclave para a prosperidade de poucos em detrimento do bem-estar da maior parte dos capixabas. Não bastasse todo o impacto nocivo causado pela Fibria no norte e noroeste  do Estado, o  Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) autorizou recentemente o  plantio de 1,9 mil hectares de eucalipto pela Suzano Papel e Celulose, em Montanha. O que já estava ruim há anos, caminha para se tornar cada vez pior, com a cumplicidade criminosa do poder público.

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