A vontade de sair às ruas simplesmente para protestar virou uma espécie de epidemia no Brasil. A “doença”, causada pelo vírus da democracia, infectou recentemente os nova-iorquinos no Ocuppy Wall Street; os espanhóis no Movimento dos Indignados; além de se alastrar como um raio pelos países do Oriente com a chamada Primavera Árabe.
No Brasil, depois de “contaminar” paulistanos e cariocas, o vírus se espalhou rapidamente e não para de se multiplicar. Os números dão conta de que pelo menos 12 capitais já convivem com a “doença”. A vontade incontrolável de sair às ruas para protestar e um dos sintomas desta “estranha enfermidade” que têm preocupado as autoridades, que confessam: não sabem como enfrentar a epidemia.
Na Capital capixaba, os representantes do poder público devem estar até agora quebrando a cabeça para tentar entender o fenômeno que se espalhou pelas redes sociais e levou para as ruas de Vitória mais de 20 mil pessoas, segundo estimou a PM.
Mais inquietante, sobretudo para os homens da política, é entender como essas “lideranças invisíveis” conseguiram mobilizar e levar para as ruas, “num clique”, uma multidão. Eles devem estar com inveja!
O enigma fica mais complexo quando os políticos de carteirinha descobrem que o movimento é apartidário, não é ligada a sindicatos e nem a organizações sociais. “Que diabo controla essa massa afinal?”, devem estar se perguntando.
O drama aumenta quando eles pensam que estão em véspera de ano eleitoral e não sabem interpretar um movimento dessa dimensão. Alguém precisa alertá-los que eles estão completamente desconectados dos “gritos das ruas” faz um bom tempo; que eles se voltaram para o próprio umbigo e se esqueceram do povo.
No Espírito Santo, por exemplo, enquanto milhares se concentravam em frente à Ufes para a marcha dessa segunda-feira (17), os deputados estavam trancafiados na Assembleia tramando mais uma manobra contra a população.
Com exceção de seis parlamentares – Gilsinho Lopes (PR), Euclério Sampaio (PDT), José Esmeraldo (PR), Marcelo Santos e Hércules Silveira (ambos do PMDB). Aparecida Denadai (PDT), embora de licença médica, se comprometeu a assinar o documento -, os demais deputados jogavam a última pá de cal sobre a CPI do Pó Preto, que era uma esperança de devolver um ar com mais qualidade à população da Grande Vitória.
Essa dicotomia entre a classe política e o povo fica patente nesse fenômeno que tem levado multidões às ruas. Eles se sentem distantes das massas porque, de fato, estão desvinculados das demandas sociais.
O governador do Estado e sua equipe vivem o mesmo distanciamento. O secretário de Segurança André Garcia, por exemplo, deu provas dessa ruptura que há entre o poder público e a população a partir de declarações à imprensa sobre o movimento.
Sem canal de interlocução para alcançar o movimento, o governo se mostra desnorteado, perdido mesmo. Resta aos seus representantes, como no caso de Garcia, se apoiar no aparelho repressor da polícia. Em vez de reconhecer esse distanciamento e tentar construir uma interlocução com o movimento, por mais embrionária que seja, o secretário alerta que a polícia não irá tolerar excessos e estará preparada para assumir seu papel repressor. Discurso ratificado pelo governador Renato Casagrande, ou seja, ambos deixam bem claro qual é a linguagem que sabem falar.
Aliás, Casagrande avisou, em declarações ao portal Gazeta Online, que está aberto ao diálogo, pronto para conversar com as lideranças. Falou até em marcar reunião, caso as lideranças se manifestem.
A dificuldade para o governo é que o movimento não tem, até agora pelo menos, lideranças identificadas. Quem recebeu o título de “um dos coordenadores” ou “um dos líderes do movimento”, refutou nas redes sociais o rótulo “inventado” pelos jornais.
Fadado a fazer acordos políticos de gabinete para impor a unanimidade em detrimento do contraditório, o governo, enferrujado em exercitar as práticas democráticas, terá muito dificuldade para construir um canal de interlocução com o movimento.
O problema é que o governo e grande parte da classe política já estão imunes ao “vírus” da democracia.

