A pesquisa do Instituto Futura/A Gazeta vem trabalhando para criar a vitória antecipada do ex-governador Paulo Hartung nas eleições deste ano. Aliás, como já aconteceu em outros pleitos.
Exagero? Pois bem, explico. Alguém se lembra das eleições para prefeito de Vitória em 2012? Até a véspera da eleição o candidato Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) aparecia virtualmente eleito na pesquisa do Futura. No domingo de votação A Gazeta estampava a iminente vitória do tucano, mas, “curiosamente”, surpreendendo as previsões do Futura, deu Luciano Rezende (PPS) na cabeça.
Esse tipo de manobra acaba sendo esquecida na eleição seguinte, principalmente porque os eleitores são reféns da informação dominada por duas empresas. Nesta eleição, a estratégia é convencer o eleitor a acreditar que a disputa para governador já está definida a 65 dias do pleito.
Essa polarização, porém, tão perniciosa ao processo eleitoral democrático, pode estar com seus dias contados. Humildemente, Século Diário passa a publicar suas pesquisas em parceria com o instituto Brand. Não somos os donos da verdade, longe disso. Mas a primeira pesquisa publicada nesta quinta-feira (31) pode ajudar o eleitor a interpretar o cenário eleitoral como ele é, ou seja, sem manipulações.
Enquanto o Futura/A Gazeta vem espalhando o clima de “já ganhou” em favor de Hartung, a pesquisa Brand/Século Diário aponta que o cenário é de indefinição. Ninguém é de ninguém. As campanhas mal chegaram às ruas, as propagandas eleitorais na TV nem foram ao ar e os candidatos ainda estão se aquecendo para os embates mais duros – só houve até agora um único debate.
Os altos índices de indecisos nas menções espontâneas confirmam que ainda não se pode falar em virtuais vencedores. Chega a ser irresponsável, pois isso pode induzir o eleitor a considerar a fatura liquidada a mais de dois meses do pleito.
Mas a estratégia do “já ganhou” interessa a muita gente. Entre outras utilidades, serve para amedrontar lideranças políticas. Tem gente temendo a ira do ex-governador caso ele confirme a vitória sobre Casagrande. Na prática, o cenário de vitória iminente pode ajudar a minar o palanque do oponente. Naquela lógica: “vou me salvar enquanto ainda é tempo”. Sem contar que os financiadores de campanha, leia-se, grandes empresários, usam os dados das pesquisas para direcionar seus investimentos. A tendência é apostar no cavalo que está ganhando e fechar o caixa para o iminente derrotado.
O golpe foi realmente bem dado e influenciou a opinião pública. Mas em termos. Estatelou-se no básico que é o número de indecisos. As pesquisas publicadas até agora batem num dado: o grande número de indecisos. Mas os jornais tratam esse dado de maneira secundária, quase irrelevante.
A pesquisa Brand/Século Diário também aferiu uma grande quantidade de indecisos: 43,1%. Esse dado aponta que não dá para falar em vitória antecipada de Paulo Hartung. Interpretando os números, significa dizer que praticamente metade do eleitorado não sabe ainda em quem votar.
A menção espontânea evidencia esse cenário de indefinição. Na nossa pesquisa, Casagrande e Hartung aparecem tecnicamente empatados nesse recorte. Entretanto, editorialmente, os jornais têm dado pouco destaque a esse dado, que justamente reflete o voto consolidado.
O grande número de indecisos e os dados da espontânea jogam uma pá de cal no cenário do “já ganhou”. Isso não quer dizer que o ex-governador não seja o favorito hoje para vencer as eleições. A pesquisa Brand/Século Diário confirmou o favoritismo de Hartung. Porém, esse favoritismo não lhe assegura a vitória. Pois a eleição ao Palácio Anchieta vai depender da metade dos eleitores que ainda não sabem em quem votar.
Para vencer a eleição, Hartung terá primeiro que disputá-la. Acabou a farra de induzir o eleitor que a eleição já está ganha. A ampliação das fontes de informação vai manter o eleitor mais bem informado. Essa nova fase vai exigir de Hartung mais trabalho, mais empenho. Ele terá que se reciclar para garantir seu favoritismo. Cá entre nós, o ex-governador nunca foi bom de rua. É avesso a gastar sola de sapatos e saliva para pedir votos. Os tempos de fazer “campanha” de dentro de gabinete refrigerado acabaram.

