Nos dias de hoje, isso é meditação

A preguiça é um dos pecados condenados pelos livros sagrados, embora seja igual à gripe – todos pegam de vez em quando, mas ninguém vive eternamente gripado. Graças à preguiça desfrutamos de grandes benesses do laborioso cérebro humano, como uma rede na sombra de um coqueiro, canudinho pra usufruir o sagrado líquido dentro do coco, ou um cochilo depois do almoço, também chamado de sesta. Sem falar na espreguiçadeira à beira da piscina, outro luxo para relaxar da endêmica pressa humana.
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Nas muitas casas onde morei – que por preguiça não vou listar – tive uma vizinha que passava o dia todo na janela. Filhos pequenos, péssima assistente de tanque e fogão, e uma janela que se abria para um mundo reduzido a outras janelas fechadas e uma ruazinha onde raramente algum preguiçoso mortal se aventurava. Na hora do almoço a auxiliar levava um prato de comida e um copo d’água. O nome era Dona Alissa, sem dona para os mais chegados, mas o povo em geral a chamava de Dona Preguiça. Nos dias de hoje, isso é meditação.
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Por preguiça de ir ao supermercado, paguei mais caro no Uber-entrega-tudo. Nas repartições públicas, a lerdeza no atendimento leva o nome de acúmulo de serviço. Ficava eu de livro na mão o dia todo, e as pessoas censuravam, Vai achar o que fazer, Menina, que preguiça é pecado! Tantos animais exóticos no mundo – a zebra é ridícula, o pescoço da girafa é desproporcional, o leão não precisava daquela juba toda, mas o bicho mais folgado que existe é o bicho-preguiça, também conhecido como dorminhoco.
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Esses exóticos animais vivem de 20 a 30 anos meditando como monges budistas, pendurados de cabeça pra baixo num galho de árvore, sem caçar ou pescar: umas folhinhas de vez em quando, e não por acaso vivem nas árvores: é só esticar a patinha. O oposto do bicho preguiça é a chita, ou guepardo, que corre a uma velocidade de 110, 120 km/h e nem sabe que é medalha de ouro. Essa destreza, porém, é fichinha comparada com o falcão peregrino, que voa a 385 km/h. A velocidade máxima obtida na Fórmula 1 foi de 372 km/h.
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Mesmo na ausência de qualquer atividade física que dure mais se cinco minutos, esses vagarosos animais ganharam um parque tropical só para eles em Orlando: o Sloth World. Se já levam horas para pôr uma folhinha na boca, mais duas para ingeri-la, imagina viver em um parque onde os animais são diariamente assistidos por simpáticos atendentes. Podemos chamá-los de sonoterapeutas?
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Esses preguiçosos invejados por muitos preguiçosos dormem de 15 a 20 horas por dia, não socializam nem brigam entre si ou entre os outros e já residem na própria fonte de alimento. O Parque é uma floresta tropical onde 40 animais vivem protegidos e pesquisados por cientistas. Para apreciar essa paz você paga 250,00 reais e está ajudando a preservar a espécie e aprender com eles que a pressa não tem nada a ver com perfeição.

