Aí vem mais um Natal, lá se vai mais um ano. Talvez nesse aniversário Jesus nos presenteie com tempos melhores, permitindo que retornem ao país os degredados que partiram em busca de uma vida melhor e não sabem mais se adaptar aos transtornos da inflação, do dólar em escalada, da violência, da impunidade, dos impostos contra isso e contra aquilo. Se dizemos que pior não pode ficar, nossos antepassados caem na risada.”Ah, não? Então espere…”
Essas lucubrações desastrosas atormentam o Lino, que quer se casar e não acha com quem. Ou melhor, achar até que acha, mas não do jeito que ele quer. Que nem aquela musiquinha do Genival, sobre um sujeito que queria se casar mas era um tanto exigente demais: mulher alta não Servia porque ele não quer tirar coco no coqueiro de ninguém; baixa também não, porque ele não quer andar sentado no tamborete de ninguém… Aí vai complicando.
Lino não é tão exigente, mas a imigração anda apertando demais o cerco, e coitados dos não-documentados, também chamados ilegais. Embora o vizinho nascido e criado no país, que reclama de tudo e atormenta a vida de todos no condomínio, não possa ser chamado de um cara legal. O oposto é o Lino, que mesmo não tendo visto de residente, é um sujeito pacato e legal com todos. Distorções linguísticas.
Lino juntou as economias para “comprar” uma boa noiva, e boa aqui indica uma jovem que não tenha se casado antes, nem separado ou divorciado – essas custam mais caro porque são mais convincentes aos olhos da lei. Mas se é contra a lei um cidadão ou cidadã se casar por interesse financeiro para regularizar a situação de um alienígena, essa pessoa, mesmo com as características ideais, pode ser considerada boa? E quem se casou por amor e se revela uma megera?
O problema é que – não mais que de repente – Lino se apaixonou, e a garota objeto de sua paixão não é boa, tendo se casado e divorciado duas vezes. Tudo legal e sacramentado, mas os dois ex-maridos eram estrangeiros e obtiveram a residência por causa do casamento com Lina, mesmo que sem intenção de burlar a lei e sem quantias envolvidas na transação. Mas um terceiro casamento? Por certo vai despertar suspeitas e pode até complicar a vida do Lino.
Anna, a amada, também não está satisfeita com a situação. Com certeza está apaixonada e gostaria de se casar, mas tem medo que tudo seja uma armação do brasileirinho em desespero de causa. Lino a ama de fato e de direito, ou quer apenas ganhar o visto de residente? A decepção com os dois relacionamentos anteriores a deixou arisca, e para se casar outra vez, precisa de mais garantias para o desejado final feliz.
Enquanto não resolvem o impasse e Lino não é deportado do paraíso para todo o sempre, os dois vão se amando – nesse natal comemoram dois anos de vida comum. Tudo que Anna deseja de Papai Noel é uma prova cabal e irreversível do amor de Lino, e essa prova seria irem morar no Brasil, para sempre, onde se casariam sem suspeitas e pressões. O que Lino deseja de Papai Noel é um milagre – Vou, mas quando as coisas melhorarem por lá.

