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Dois anos de impunidade

Nesse domingo (5), o crime da Samarco-Vale-BHP Billiton completou dois anos. Jornais de todo o País registraram a data para fazer um balanço da maior tragédia ambiental do Brasil. O deslocamento de mais de 40 milhões de metros cúbicos de lama destruiu comunidades inteiras ao longo do trajeto de 663 km do rio Doce entre Minas Gerais e Espírito Santo. No Estado, onde se localiza a foz do rio, os impactos se estenderam para todo o litoral norte capixaba.
 
Dois anos depois, resta evidente que o crime das mineradoras segue impune. Além das 19 vidas que a lama sorveu, os impactos ambientais e sociais são incalculáveis e ainda estão muito longe de serem, ao menos, mitigados. 
 
Reportagem de Século Diário publicada nesse domingo (5) destacou justamente o padecimento das comunidades impactadas pela tragédia. Não bastasse todo o sofrimento imposto pela ação irresponsável da Sarmarco-Vale-BHP, as vítimas precisam provar à mineradora que são vítimas.
 
A empresa criou, em 2016, a Fundação Renova com o compromisso de reparar e indenizar os atingidos, inclusive de fazer o cadastro. Mas a reportagem de Século Diário e de outros jornais mostraram que as vítimas têm enfrentado um verdadeiro périplo para fazer o cadastro. “Não quero cesta básica, quero minha dignidade, quero minha identidade de pescadora de volta!”, reivindica a pescadora Creuza Campelo da Silva, nascida e criada na comunidade de Campo Grande, em São Mateus, norte do Estado.
 
O desabafo da pescadora reflete a indignação das comunidades afetadas pela lama ante o descaso da mineradora e do poder público. Dois anos depois da tragédia, ninguém está preso, ninguém foi criminalmente responsabilizado. Das mais de 60 multas aplicadas por órgãos federais e estaduais de MG e do ES, apenas duas foram pagas. A empresa aposta na condescendência do poder público para se manter impune. 
 
O governador Paulo Hartung (PMDB) é um dos agentes públicos que tem defendido com veemência o retorno das atividades da mineradora. Nos últimos meses, ele tem feito articulações intensas com o governo federal, pleiteando a liberação das operações da Samarco. Recentemente Hartung se reuniu com o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, ampliando seu lobby em Brasília a favor da empresa. 
 
O mesmo afinco e dedicação, porém, o governador não tem mostrado para pressionar a Samarco a assumir os danos ambientais e sociais causados às comunidades capixabas vítimas da lama. Muito ao contrário, o governador está interessado apenas em liberar as amarras que impedem a Samarco de retomar suas operações.
 
Com a narrativa deste terceiro mandato apoiada numa política espartana de ajuste fiscal — escondendo os reveses sociais desse arrocho —, Hartung vem repetindo à imprensa nacional que os resultados fiscais do Espírito Santo só não são melhores em razão na inatividade da Samarco. Com esse raciocínio, o governador impõe a volta da mineradora como condição sine qua non para a economia do Estado decolar de vez. 
 
“A Samarco é uma empresa de impacto econômico nacional. Estamos defendendo a volta do funcionamento da empresa, mas com absoluta segurança”. Essa é uma das frases-feitas que Hartung tem repetido para defender o retorno das atividades da mineradora. Os relatos de descaso das vítimas registrados na reportagem de Século Diário e de tantas outras publicadas por outros veículos nos últimos dias mostram que o trecho da frase de Hartung (“mas com absoluta segurança”) é um grande engodo. O governador, não é segredo para ninguém, sempre pôs os interesses econômicos à frente dos da população. O episódio do descaso às vítimas da Samarco deixa claro para quem Hartung governa.

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