Estados Unidos voltam a tratar a América Latina como quintal
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, depois de investir numa política comercial de tarifaços, com avanços e recuos, rompendo com o multilateralismo de uma economia integrada e globalizada e com cadeias de produção interdependentes, agora coloca o mundo geopolítico no seu aspecto de esferas de poder, também sob um retrocesso em que a ordem mundial regride a divisões de influência que remetem ao século XIX.
Tal retrocesso já tinha começado por parte de Putin, com a invasão russa na Ucrânia, numa guerra territorial que também tem ecos em outros tempos, e que colocou a Europa novamente no mapa da guerra clássica, o que não ocorria desde o combate contra o nazismo alemão e o fascismo italiano na Segunda Guerra Mundial.
O ano de 2026 começa com uma invasão norte-americana na Venezuela, de caráter tópico, pois não houve continuidade e aprofundamento de um plano de ocupação territorial ou até de mudança de regime político. O que aconteceu como fato principal foi o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, e o transporte dos mesmos, por navio, até Nova Iorque, para um julgamento. Tal medida de Trump rompe com o sistema jurídico internacional, em que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) tem que autorizar o ataque de um país a outro, ou quando se trata de casos de legítima defesa.
Ocorre um retorno à Era dos Impérios, em que parece ter tido um acordo de zonas de influência, abrindo caminho para que os Estados Unidos retomem, ipsis litteris, sem esconder nada, a política que Trump passou a chamar de Doutrina Donroe, remetendo à antiga Doutrina Monroe, mas que está mais próxima do que foi o Big Stick de Theodore Roosevelt no início do século XX, em que os Estados Unidos tornaram o chamado Destino Manifesto em geopolítica de domínio regional.
Houve, então, uma troca, em que os Estados Unidos volta a tratar a América Latina como seu quintal, como uma zona de influência de caráter colonial, com a Rússia, que passa a ficar mais à vontade em relação à Ucrânia, partindo para o acordo que sempre desejou, com um terço do país vizinho anexado, isto é, além da Crimeia, já ocupada há alguns anos, tendo agora a possibilidade de anexar de vez o Donbass.
O cenário consolida as forças separatistas pró-russas, apoiadas pela Rússia, que tomaram partes das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, declarando as Repúblicas Populares de Donetsk (DNR) e Luhansk (LNR), criando um corredor terrestre até a Crimeia, e com a China já visando Taiwan, que poderá ser invadida a médio prazo ou em algum momento incógnito, com a tensão que já havia no Mar da China ganhando novos contornos.
A Era dos Impérios é a retomada da lei do mais forte, em que o sistema político global, que na globalização se estruturava através do comércio e da economia, tem agora no poder militar o fator determinante da divisão de influências no desenho geopolítico, isso incluindo a China, de posição mais voltada à diplomacia e à inserção comercial, no nível mundial, mas sendo uma constante ameaça contra Taiwan e com um histórico de anexações sangrentas como a invasão do Tibete, e os massacres contra muçulmanos no sudoeste do país.
A China agora também enfrenta uma renovada tensão com o Japão, que agora tem uma primeira-ministra de extrema direita que parece estar despertando novamente os instintos militares nipônicos, que estavam adormecidos desde a queda do imperialismo expansionista da época do Eixo e da Segunda Guerra Mundial, em que o Japão já ocupava a Manchúria, parte do território chinês, naqueles anos.
E agora os Estados Unidos saem do discurso e partem para as vias de fato na invasão à Venezuela e com ameaças à Groenlândia e o Irã, entrando numa seara que tinha sido detonada na História contemporânea com a invasão russa, de Putin, na Ucrânia, que já gerava tensões com a Otan, agora se vendo com a questão norte-americana em relação à Groenlândia, que pertence à Dinamarca, que faz parte da organização, e que inclui o próprio Estados Unidos, o seu principal financiador, criando um circuito de tensões que leva de roldão todos os países europeus que fazem parte da Otan.
No caso da lei do mais forte, fica restabelecida a lógica de que dentro da divisão de zonas de influências, as respectivas potências mundiais estão liberadas para qualquer ataque em suas zonas, ou seja, a Era dos Impérios rediviva é a implosão do aparato geopolítico erguido pelo direito internacional do pós-guerra, em que surgiram a ONU e outros organismos internacionais que visavam a multilateralidade e a manutenção de uma paz diplomática e sempre negociada em todas as questões.
Este retorno da Era dos Impérios é a derrubada do conceito mais contemporâneo de soberanias nacionais, de inspiração iluminista, com a consequência do esvaziamento do direito internacional e do fim da globalização que atravessou os anos 1990 e ainda regia o comércio mundial até as intervenções tarifárias norte-americanas e agora o fim do multilateralismo, da soberania, e de tudo que foi acordado desde a segunda metade do século XX.
Gaza foi uma espécie de laboratório de guerra genocida em que ficou provado que Israel poderia exterminar o povo palestino sem consequências na geopolítica internacional, o que proporcionou aos Estados Unidos e outras potências de que as invasões, expropriações e etc. já não precisavam mais observar o sistema jurídico internacional, que vive agora mais que um esvaziamento, mas uma verdadeira implosão, numa nova era de retrocesso, ou seja, um museu de grandes novidades, citando Cazuza.
Essa nova dinâmica de poder, opressão e controle, é nada mais que o antigo modelo imperialista que encontra ecos com o século XIX, num aprofundamento do Estado de Exceção com os plenos poderes concedidos ao ICE, a polícia de imigração, em um processo que já tinha começado, nos Estados Unidos, desde os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, e ao Pentágono, em Washington, incluindo um ataque que falhou visando atingir a Casa Branca, na maior façanha terrorista da história mundial, feita pela Al-Qaeda de Osama Bin Laden, no 11 de setembro de 2001, em que foram promulgadas leis como o Patriot Act, que expandiu os poderes de vigilância das agências de segurança sobre a população norte-americana.
O Estado de Exceção norte-americano avançou com os ataques ao Afeganistão e ao Iraque na chamada Guerra ao Terror, na presidência de George W.Bush, em que a ONU começou a ser esvaziada em sua autoridade, além da Base de Guantánamo, em que prisioneiros de guerra se encontravam num limbo jurídico, sem quaisquer garantias constitucionais, remontando zonas de exclusão em que a lei foi suspensa como os campos de concentração nazistas e os de refugiados em Gaza.
Nessa nova Era dos Impérios, ocorre a escala de países que podem ser divididos em três categorias, em que as novas potências são os impérios militares e econômicos, com armas nucleares, que determinam as regras do estado de exceção nas relações internacionais, que são os Estados Unidos, a China e a Rússia, seguidas das potências médias, que possuem armas nucleares e poder econômico, como o Reino Unido, a França, a Índia e Israel, e na base estão os outros países, que estão vulneráveis em relação às grandes potências, podendo manter a independência, virar países satélites ou protetorados destas potências militares e econômicas.
A Nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, anunciada pela Casa Branca em dezembro de 2025, colocou a América Latina na prioridade como zona de influência norte-americana, em que este documento atualiza a Doutrina Monroe, que foi feita pelo presidente James Monroe, em 1823, que defendia a “América para os americanos” e fundamentou e justificou ações diplomáticas, militares e econômicas, de consolidação da influência dos Estados Unidos no continente americano.
Trump começou exercendo esta nova doutrina no Panamá, fazendo com que o país rompesse a cooperação em infraestrutura com os chineses, apoiando o candidato conservador a presidente de Honduras, Nasry Asfura, do Partido Nacional, com ameaças de suspensão de ajuda financeira ao país caso ele não se elegesse, sendo estes dois movimentos sendo feitos ainda antes do ataque à Venezuela. E a nova doutrina ainda incluiu um socorro financeiro de U$ 20 bilhões ao governo argentino, do aliado de Trump, o ultraliberal, anarcocapitalista, Javier Milei, dias antes das eleições legislativas na Argentina, o que garantiu a vitória do partido governista e a sobrevivência do governo.
Domesticamente, Trump está sob crítica intensa pela sua utilização autoritária do ICE contra a imigração, ainda tendo as denúncias de pedofilia do caso Epstein (cujos arquivos que estão sendo vazados e revelados e que vou detalhar em outra coluna), com as eleições de meio de mandato se aproximando, além de uma resistência interna contra novas incursões militares norte-americanas, pois são caras e ineficientes, com um passivo histórico recente de fracassos, cujo exemplo mais emblemático é o do Afeganistão, reocupado pelo Talibã, e todo atoleiro que foi a ocupação do Iraque após a queda de Saddam Hussein, com tentativas frustradas de mudança de regime, algo que ainda orientava a geopolítica da Guerra ao Terror de George W. Bush.
No caso das incursões militares, tal intenção de mudança de regime de outros países parece passar longe das preocupações de Trump, que no caso da Venezuela, já deixou à luz do dia suas intenções corporativas em relação ao petróleo venezuelano. Ainda há um regime bolivariano em vigor, mas em uma condição ambígua, de uma Delcy Rodríguez, que colabora com o plano norte-americano, ao passo que a oposicionista Maria Corina Machado, ao entregar o seu Prêmio Nobel a Trump, numa cena patética de rastejamento político e de atuação servil, numa vassalagem de sabuja, mesureira, lacaia, bajouja, chaleira e sevandija, diante de seu vicário, superou até mesmo a própria família Bolsonaro, notórios baba-ovos de Donald Trump de primeira hora, em termos de vassalagem explícita, rebaixada e sem vergonha, ou seja, uma façanha.
(continua)
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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