Vai fazer duas semanas que a Polícia Militar retornou às ruas, pondo fim a uma paralisação que se estendeu por longos 22 dias. Mesmo com a volta da PM, a crise na segurança pública está longe de acabar.
A solenidade de posse do comandante-geral da PM, Nylton Rodrigues, nesta quarta-feira (15), aconteceu a portas fechadas, confirmando que a crise ainda ecoa. O seleto grupo de convidados foi escolhido a dedo com a missão de prestigiar o comandante e tentar imprimir alguma legitimidade ao evento. Mas o clima de constrangimento pairava no ar.
As solenidades de posse de um comandante da PM costumam reunir praças e oficiais. O evento é realizado geralmente no Quartel do Comando Geral (QCG), em Maruípe, e ao ar livre, devido ao grande número de participantes. No auge da solenidade, o governador do Estado costuma passar as tropas em revista, dando pompa à solenidade.
Na posse desta quarta-feira não houve nada disso. A solenidade foi feita a quatro paredes porque boa parte da tropa não reconhece o comando do coronel Nylton Rodrigues. No auge da queda de braço entre o governo do Estado e o movimento de mulheres dos policiais, o coronel Nylton aceitou fazer o jogo do governador, mesmo sabendo que, àquela altura, anunciar punições aos militares seria um ato interpretado pela tropa como traição. Manobra que o seu antecessor, coronel Laércio Oliveira, que a ocasião estava apenas há 21 dias à frente da PM, teria se recusado a fazer.
Mas a relação entre o governador e a PM não anda boa e não é de hoje. Logo no primeiro ano do terceiro mandato, Hartung teve seu primeiro entrevero com os novos soldados.
Nos primeiros meses de governo, Hartung vinha passando vigorosamente a foice nos gastos. Empolgado com os cortes, mandou o Alto Comando da PM segurar a formatura de quase mil soldados, que esperavam ansiosos pelo grande dia. A formatura, inicialmente marcada para julho 2015, aconteceria quase cinco meses depois. Motivo: Hartung queria economizar mais alguns meses, já que a remuneração aumentaria após a formatura, representando mais gastos para o governo.
Na ocasião, o governador fora alertado a não dar as caras no evento, porque poderia não ser bem-recebido pelos cerca de cinco mil familiares dos novos soldados que lotavam o Álvares Cabral.
Desconfiado, Hartung achou prudente mandar o vice César Colnago (PSDB) para a missão inglória. A vaia monumental, na falta do governador, foi para o seu representante, que pagou o pato. Desconcertado, Colnago preferiu não discursar para evitar novos constrangimentos.
O então comandante-geral da PM, coronel Marcos Antônio Souza do Nascimento, vinha sendo ovacionado pelos convidados. Com a popularidade em alta, o coronel teve a infeliz ideia de tentar explicar por que o governador adiara a formatura. Imediatamente os aplausos foram trocados por apupos.
Logo no início daquele mesmo ano, em abril, Paulo Hartung já passara por outro episódio constrangedor, na ocasião de uma solenidade no QCG com praças e oficiais. Ao pedir um “viva a Polícia Militar do Espírito Santo”, o governador foi solenemente ignorado. Inconformado, ele tentou puxar o “viva” novamente, e mais uma vez constrangeu-se com o silêncio absoluto dos militares.
Nos dois episódios ficou patente a insatisfação dos policiais com o governador. Se essa relação já estava abalada esgarçou-se consideravelmente após a recente crise na segurança pública.
Dificilmente essa relação será restaurada até o final deste governo. Hartung, Garcia e o coronel Nylton terão que se acostumar a promover solenidades fechadas, para convidados dispostos a se comportarem como claques de auditório, como os que prestigiaram hoje a posse do comandante da PM.

