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Eleições municipais e desconexões sociopolíticas

Já se vislumbra que as eleições municipais de 2016 serão atípicas e permeadas por incertezas. Esquisitas. Imprevisíveis. Cenários de não cenários. Tudo isto, como se sabe, porque elas deverão ter fortes influências das desconexões sócio-políticas que se intensificaram no Brasil pelo menos desde 2013. Desconexões entre sociedade e instituições políticas, entre representantes e representados. Que resultam numa rejeição notável às elites políticas, à política oligárquica e ao “establishment” em geral.

 

As manifestações que varreram o Brasil em 2013 afetaram o Zeitgeist (espírito de época).  Portanto, afetaram a cultura e a cultura política. Elas acabaram gerando efeitos sociológicos pertinentes na sociedade e na política. Uma (nova) sociedade em movimento e transformação que está querendo – e continua dizendo que quer mais – cidadania política e social e que mostra que há uma crise de representação no sistema político brasileiro, nos planos nacional, estadual e local.

 

É o aprofundamento, cada vez mais patente, do dilema político-institucional brasileiro: sociedade e economia que se modernizam e se transformam “versus” sistema político arcaico e tradicional, portador (o sistema político) do vírus da ingovernabilidade. Depois, na sequência das manifestações, a Operação Lava-Jato atingiu em cheio o “establishment” e aprofundou ainda mais o dilema político-institucional, aumentando a rejeição da sociedade ao próprio “establishment”. É esta forte rejeição que deverá ter influência decisiva nas razões de votos e “não votos” das próximas eleições municipais.

 

O que isto poderá significar na prática? De pronto, já se vislumbra boa probabilidade de grande alienação eleitoral. Resultante do descrédito que gera apatia, rejeição, propensão às reações de revoltas e às sensações de exclusão. Caldo de cultura para o surgimento dos chamados “outsiders” ou dos “cacarecos”. Isto porque o índice de renovação das elites políticas no Brasil é muito baixo. E, na verdade, muitos “outsiders” já são “insiders”, por assim dizer – como já é o caso do apresentador de TV e deputado estadual Amaro Neto (SDD) em Vitória.

 

À rejeição aos políticos deve-se acrescentar a grande fragmentação partidária e a fragmentação de lideranças e candidaturas. Esta dupla fragmentação, de partidos e de lideranças, não ajuda a dar nitidez política às eleições. Não ajuda o eleitor a fazer escolhas no campo político e programático. Pelo contrário. Elas também não ajudam o eleitor a discernir quem está com quem. Pelo contrário. São estimulantes às deslealdades políticas e, até, às lealdades duais.

 

Aqui e acolá, este quadro geral, este contexto, é recorrente.  No Espírito Santo, por exemplo. E no Espírito Santo, por sinal, este contexto nos remete a observar que pode ser equivocada a visão de que as eleições municipais de 2016 vão ser palco de um pretenso duelo político-eleitoral entre o ex-governador Renato Casagrande (PSB) e o governador Paulo Hartung (PMDB). Não deverá ser. Não poderá ser. É muito improvável.

 

Improvável porque o clima político é de fragmentação local, e não de polarização estadual. Improvável porque as lealdades duais sorrateiras vão ser praticadas em nome da sobrevivência política local. Improvável porque não há o menor clima político para uma política de geopolítica. Improvável porque os senadores Ricardo Ferraço (PSDB) e Magno Malta (PR) vão atuar para evitar possibilidades de “estadualização” da disputa, em legitima defesa dos seus próprios projetos políticos para 2018. Sem contar que a senadora Rose de Freitas (PMDB), com mandato até 2022, também vai atuar para a “municipalização” da disputa, ainda mais ela, que é política de tradição municipalista e que vai buscar protagonismo em 2016 e também em 2018. 

 

Assim, o que se vislumbra é uma eleição municipal de corte local, focada em disputas locais e em temas locais. Com poucos recursos, muito poucos, os candidatos a prefeito vão ter que ter a lógica do vereador que vai de casa em casa e de bairro em bairro. Praticar a política do pão com manteiga, olhar no olho, passar credibilidade, mostrar sintonia com os problemas cotidianos. Até porque, a “estadualização” ou a “nacionalização” da disputa, além de ser um despropósito e um equívoco político, é também um risco, já que levaria o eleitor, em alguns casos, a “identificar” os candidatos locais com partidos e personalidades nacionais envolvidos com a Lava Jato. Melhor olhar só para as questões locais…

 

Com este corte local, é provável também que as eleições sejam muito focadas em atributos pessoais dos candidatos, começando pela honestidade e pela capacidade de gestão. O que as torna ainda mais de corte local, para além de uma eventual polarização entre Casagrande e Hartung.

 

Com alta rejeição aos políticos, e com este corte local, aqueles candidatos à reeleição, como Audifax Barcellos (Rede) e Luciano Rezende (PPS), têm mais chances de reeleição se conseguirem vencer no primeiro turno. A rejeição é também ao poder incumbente. E nestes dois casos, da Serra e de Vitória, se houver segundo turno, a reeleição fica muito mais difícil. 

 

Na maioria dos casos, a tendência a uma acentuada alienação eleitoral torna as eleições municipais de 2016 traiçoeiras e imprevisíveis.  Quem se habilita a ser candidato nesta selva e neste labirinto?

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