A relação entre Paulo Hartung (PMDB) e Theodorico Ferraço (DEM) sempre foi de altos e baixos, como dois animais selvagens que instintivamente se estranham quando sentem que seus territórios estão ameaçados, mas que ao mesmo tempo se respeitam, até para evitar um confronto de morte.
Em 2010, no chamado abril sangrento, quando Hartung mexeu de última hora no tabuleiro eleitoral, preterindo da sucessão ao Palácio Anchieta o então vice-governador Ricardo Ferraço (PSDB) para passar o bastão para o socialista Renato Casagrande, num acordo nacional triangulado com PT e PSB, o governador sabia que pai e filho saíram magoados com a virada de mesa inesperada.
Nas eleições de 2014, Hartung voltaria a atrapalhar os planos de Ferraço. Desta vez a vítima não foi o filho, mas a primeira-dama do clã. Ferraço não perdoou Hartung por não ter se empenhado na eleição de Norma Ayub para a Câmara dos Deputados — um sonho da mulher de Ferraço.
Se frustrar o sonho de sua mulher machucara Ferraço, o ressentimento do cachoeirense aumentaria com a quebra de acordo por parte de Hartung. Antes das eleições, Hartung prometera a Ferraço que Norma “subiria” para a Câmara se atingisse votação suficiente para alcançar, ao menos, a segunda suplência. Acabou ficando com a primeira. Mas Hartung não cumpriu a parte dele no acordo de puxar um dos deputados eleitos na coligação para sua equipe de governo, abrindo assim a vaga para Norma na Câmara.
Um fato ainda mais recente envolveu o próprio Ferraço. Hartung não queria que o demista fosse reconduzido ao quarto mandato consecutivo à frente da Casa. O governador não pensou duas vezes em tratorar as pretensões Ferraço. Enfiou as duas mãos no processo sucessório do Poder Legislativo para eleger o mais jovem dos deputados (Erick Musso, PMDB) presidente da Assembleia, deixando o decano a ver navios.
Ferraço não engoliu a manobra de Hartung. Quem acreditou que ele aceitou resignado o desfecho do processo sucessório, enganou-se. A relação que a essa altura, pela sucessão de mágoas, já parecia sem volta, virou guerra quando Hartung se movimentou para tomar o DEM capixaba de Ferraço na mão grande.
Na sessão dessa quarta-feira (28), na Assembleia, Ferraço fez um ataque-desabafo contra Hartung. Aproveitou para desvelar o mistério que cercava a reunião entre Hartung e o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM). Ele esclareceu que o governador queria assumir o controle do DEM do Espírito Santo articulando forças por Brasília.
O episódio parece ter sido a gota d’água que faltava para Ferraço se pintar para a guerra. Ele se sentiu ameaçado e, se preciso, estaria disposto a dar sua vida para proteger seu clã.
É oportuno recuperar a passagem da obra “O Príncipe”, de Maquiavel, para fazer a reflexão do comportamento dessas duas “feras” da política. Quem é o leão e quem é a raposa?
O político, o leão e a raposa
“Há dois métodos de luta. Um é pela lei, e o outro pela força. O primeiro é próprio dos homens. O segundo, dos animais. Entretanto, como o primeiro método é muitas vezes insuficiente, deve-se aprender a usar o segundo. Um príncipe, então, sendo obrigado a saber lutar como um animal, deve imitar a raposa e o leão, pois o leão não sabe proteger-se das armadilhas, e a raposa não consegue defender-se dos lobos. O príncipe, portanto, deve ser uma raposa para reconhecer as armadilhas e um leão para assustar os lobos.”

