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Em pratos limpos

A aprovação do projeto de lei complementar (PL 15/2015) que obriga o retorno dos policiais militares da ativa cedidos para órgãos públicos e demais Poderes, vai muito além da ampliação do efetivo policial nas ruas. O interesse público também fica evidenciado pelo freio à espetacularização da escolta de autoridade estaduais. Um debate tão necessário quanto fundamental em tempos da necessidade de transparência no trato da coisa pública.

Há mais de uma década, algumas personalidades do mundo político e jurídico têm a seu dispor mais de uma dúzia de policiais, servindo-os 24 horas por dia, sete dias por semana, a expensas do erário. Enquanto isso, o cidadão comum fica a mercê da violência cotidiana, que atinge todos os espectros da sociedade – seja nos crimes contra a vida nas regiões periféricas, quanto nos crimes contra patrimônio, notadamente em áreas mais abastadas.

Não é o caso de extinguir a possibilidade de militares atuarem na proteção de autoridades sob ameaça, mas desde que seja de forma fundamentada e bem transparente. O obscurantismo do atual modelo ficou evidenciado na fala do próprio secretário de Segurança Pública, André Garcia, que não soube esclarecer à Comissão de Segurança da Assembleia quais são os critérios para a manutenção da escolta a autoridades. Não se sabe sequer o quantitativo à disposição desse tipo de serviço. Ou finge não saber.

Esse debate sobre a escolta de autoridades só foi puxado pela polêmica em torno dos cinco militares cedidos à Assembleia, que tiveram de retornar às suas funções antes mesmo da aprovação de lei. Para Século Diário, esse assunto não é novo, muito pelo contrário. Há muito tempo defendemos transparência e rigor na fiscalização dessas escoltas. Por conta disso, sofremos represálias através de processos judiciais. Um desses litigantes é o juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos.

Não por coincidência, o magistrado está ligado à outra autoridade igualmente contemplada pela escolta policial, o prefeito de Vila Velha e ex-secretário de Segurança Pública Rodney Miranda (DEM), que são co-autores do livro sobre a morte do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, assassinado em março de 2003. Desde a época do crime, a dupla vive sob escolta sob pretexto de uma pretensa ameaça. Mas qual seria a ameaça que perduraria por 13 anos?

Essa pergunta acima foi feita pelos deputados da Comissão de Segurança, que nada obtiveram de resposta de André Garcia. Pelo contrário, a falta de informação só aumentou a desconfiança por trás de um modelo de proteção que parece ter menos relação com a garantia da proteção à pessoa e mais com uma forma de autopromoção. Não à toa, os parlamentares – dois policiais civis e um militar – questionaram o porquê das autoridades escoltadas não seguirem rígidos procedimentos para evitar qualquer imprevisto.

O cidadão mais atento que circula na orla de Camburi ou Curva da Jurema já deve ter visto uma cena inusitada: um policial descaracterizado segue à frente do juiz, que é escoltado por mais dois policiais em bicicletas nos lados, além de outros policias mais atrás do grupo. Um aparato que é digno do policiamento destinado para todo um município no interior do Estado. A cena se repete em todos os deslocamentos do togado, seja em restaurantes, na faculdade onde dá aula, ou qualquer outro local público.

É preciso dar um basta nisso. Caso existam ameaças concretas, que o Estado garanta a devida escolta, desde que com a exigência de procedimentos específicos.  “Eles não podem estar em local público, não podem estar em boates, passeando com os cachorrinhos nos calçadões da vida com seguranças atrás. Isso é um desrespeito com o dinheiro público”, advertiu o deputado Gilsinho Lopes (PR), que é delegado de Polícia Civil.

Durante a audiência na Comissão de Segurança, o secretário André Garcia sinalizou que o governo é favorável à regulamentação do tema. Ele defendeu que os militares cedidos para escolta usem fardamento e que sejam utilizadas viaturas caracterizadas da Polícia. Bem diferente do atual expediente, mais assemelhado à segurança de estrelas de televisão, jogadores de futebol ou até mesmo do presidente da República.

Talvez seja esse o caminho para que se dê um basta à atual espetacularização da escolta, mas é preciso que se fale sobre o assunto. Casuísmo à parte, os deputados cumpriram seu papel. Esperamos agora que a lei complementar sai do papel, bem como a regulamentação da cessão de militares para a segurança privada de autoridades.

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