Antigamente era difícil presentear as crianças. Além de termos menos opções que hoje, o presente devia ser inesperado. Hoje em dia o elemento surpresa foi eliminado e qualquer criança sabe o que quer. Nesse aniversário, completando 4 aninhos, Felipe quer um Ipad! “Todos os meus amigos já têm!” é o argumento irrefutável. Criado como opção mais prática para os laptops, a maravilha tecnológica virou brinquedinho de criança. E sossego dos pais – com um Ipad em cada colo, não tem brigas nem me-leva-no-parquinho.
Em recente festinha escolar, enquanto pais e professores conversavam, a criançada se distraía – cada uma com seu Ipad. Outras opções disponíveis na área, como em qualquer escola pública americana: uma televisão digital tamanho gigante passando um recente desenho Disney; playground com vários brinquedos; mesas transbordantes de guloseimas e refris; campinho de basquete, com bolas descansando na grama sintética. Duas mesas de ping-pong dormiam tranquilas a um canto.
Já fui professora de escola primária no século passado, opção zero. O nome na época era escola singular, mas devia ser plural, porque era uma só sala com todas as classes juntas. Como ensinar o b+a=ba aos pirralhos de 6 -7 anos e os segredos da composição linguística aos marmanjos de 12-15 anos? Se chovia não tinha aulas – goteiras. E teve a história do coronel que mandou incendiar a escola – fora do horário das aulas, felizmente – para que a filha professora ficasse em disponibilidade.
Numa época em que o material escolar do ano seguinte vinha nos presentes de natal, no recreio as crianças não tinham com o que brincar. Nem um balanço de corda pendurado num galho de árvore, nem uma risca de chão liso onde pudessem chutar uma bola de meia. Mas se divertiam a valer no pick e nas brincadeiras de roda. Aliás, nem material escolar o governo fornecia –meu parco salário tinha que prover giz para o quadro negro e lápis para os alunos.
Meu curso primário foi completado no Professor Lellis, belo edifício enobrecendo uma pacata rua de Alegre e que, tal como o Teatro de Manaus, tem fama de ter sido construído por alienígenas. Não duvido. O que a gente fazia no amplo pátio na hora do recreio? Pulava corda. Acho que não por acaso, essa milenar atividade esportiva é ainda muito usada nas escolas, por sua óbvia representação dos desafios da vida. Ora direis, todo esporte… Sim, mas a corda tem mais que os outros.
No Prof. Lellis era uma corda tamanho anaconda, movida pelos alunos mais velhos e mais fortes. Durante todo o recreio a corda rodava, e as crianças faziam fila para entrar. Quando ficava muito cheia, os mais fracos eram ‘cuspidos’. E aí está a simbologia – as oportunidades abundam na vida, quem tem coragem e visão enfrenta o desafio e entra; os mais capazes ficam, os despreparados são eliminados. Os tímidos nem chegam perto.
P.S. Agosto, mês do desgosto, marca os 69 anos do bombardeio de Hiroshima. Somando com as vítimas de Nagazaki, 246 mil pessoas morreram. Onde estava eu? No Prof. Lellis, onde nunca tive coragem de enfrentar aquela corda…

