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Espantalho de PH

Nos governos de Paulo Hartung (PMDB), o cargo de secretário de Agricultura sempre carimbou o passaporte dos aliados do governador que almejavam voos mais altos. Foi assim, por exemplo, com Ricardo Ferraço, César Colnago e agora se repete com Octaciano Neto, que pretende disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
 
Os vigorosos recursos que a Secretaria de Agricultura (Seag) movimentam e a capilaridade que ela proporciona costumam ser convertidos em votos pelos seus titulares. Não é à toa que as estimativas apontam que Octaciano não terá menos de 100 mil votos na disputa de 2018. O capital nas urnas e a importância de ter um assento na Câmara, sobretudo em termos de recursos, são quesitos desejados pelos partidos na hora de escolher seus candidatos. 
 
Mas então por que tanta brigalhada no PSDB em torno da filiação de Octaciano ao ninho tucano, questionariam as lideranças do partido que promoveram a entrada do secretário na legenda. De outro lado, os tucanos que puseram o pé na porta vão alegar que a questão com a filiação de Octaciano não tem nada de pessoal. Eles teriam reprovado a forma como o vice-governador César Colnago conduziu as coisas, ao fazer a filiação pelas portas dos fundos do PSDB. 
 
Controvérsias à parte, eu pergunto aos meus botões se o PSDB tem candidato hoje para arrastar 100 mil votos numa disputa à Câmara. O próprio Colnago tem dito que é candidato à Câmara dos Deputados. Acho que neste momento ele não tem capital suficiente para chegar em Brasília. 
 
Se o PSDB mantiver a porta fechada para Octaciano, restará ao secretário procurar outra legenda. O deputado federal Carlos Manato, que já deu a chave do Solidariedade para a candidatura do deputado estadual Amaro Neto galgar seu caminho ao Senado, se apressou em oferecer guarida ao titular da Seag. Manato é prático. Quer no partido candidatos que possam arrastar votos, muitos votos.
 
Mas voltando à brigalhada dos tucanos, fica patente que o PSDB é um partido que não se entende mais. Uma banda quer se manter como coadjuvante do projeto de PH; outra quer mais protagonismo, mais independência do Palácio Anchieta. Os desígnios do PSDB passam pelo próximo presidente estadual da legenda. Colnago e o prefeito de Vila Velha Max Filho seriam os postulantes hoje. Com o primeiro, o partido fica onde está; já com o segundo, tem a perspectiva de iniciar um processo de distanciamento de PH. A terceira via, se houver, seria Luiz Paulo Vellozo Lucas, que chegaria para romper de vez o cordão umbilical com o Palácio Anchieta, como quer a ala mais progressista do partido.
 
O fato é que essa divisão crônica vem se refletindo nas urnas. Nas eleições de 2014, em termos de votos contabilizados para a legenda, o PSDB foi apenas a sexta força na Assembleia e a quarta na Câmara. Fez dois deputados estaduais e um federal. O senador que tem hoje, Ricardo Ferraço, se elegeu em 2010 pelo PMDB. A propósito, o último senador eleito pelo PSDB foi Paulo Hartung, há quase duas décadas (1998). 
 
Não é segredo para ninguém que a manobra empreendida por Colnago para filiar o secretário foi urdida por Hartung. O que revela o desespero de PH em tentar criar um ambiente menos inóspito para seu projeto de reeleição, que apresenta muitas fragilidades. Um dos responsáveis por esse racha no PSDB, PH está num partido que também está todo fragmentado, o que dificulta seu trabalho de articulação. 
 
Podemos dizer que o PMDB capixaba não é bem um partido, mas uma espécie de concessão. A legenda é dividida entre Hartung e a senadora Rose de Freitas, que hoje tem muito mais ascendência sobre a legenda por causa de sua proximidade com o presidente Temer. Fortalecida, Rose assombra PH com uma iminente candidatura ao governo. Aliás, a pretensão de Rose tem segurado o governador no PMDB, que fala em deixar o partido desde o início do ano, mas a insegurança o faz ficar imóvel, à espera dos próximos acontecimentos. 
 
Fecho este artigo convencido de que Octaciano Neto pode se transformar em “espantalho” da próxima eleição. Pode ser, como já está sendo, alvo de pedradas dos desafetos de PH. Eles entenderam que, atirando no secretário, acertam PH. Por isso, a estratégia de Hartung de levá-lo para o PSDB de forma atabalhoada acabou sendo nociva para Octaciano. Se o governador o considera um dos seus trunfos para o jogo político de 2018, deveria preservá-lo e não expô-lo.  

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