Quando o PT completou 35 anos, em fevereiro de 2015, o ex-governador gaúcho Olívio Dutra publicou um manifesto de quatro páginas sobre os rumos tomados pelo partido desde que chegou às instâncias executiva e legislativa do Poder. Tendo como marco referencial a posse de Lula na presidência da República em 2003, o chamado Galo Missioneiro (ele nasceu em São Luiz Gonzaga, um dos Sete Povos das Missões Jesuíticas) fez uma corajosa reflexão que, à falta de uma autocrítica mais abrangente e profunda, poderá servir futuramente como um documento referencial sobre o período democrático vivido pelos brasileiros entre a Constituição de 1988 e o impedimento da presidenta Dilma em 2016.
No texto intitulado “O PT e seus 35 anos”, o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, sem medo de ser taxado de infeliz e politicamente incorreto, pôs o dedo na ferida ao reconhecer que “a inserção do PT na institucionalidade” gerou “uma cultura de acomodação e pragmatismo” (que vem) “se alastrando pelas engrenagens do Partido como uma ferrugem”. E concluiu: “As figuras do partido que se relacionaram pessoalmente de forma promíscua com contraventores e ladravazes de colarinho branco” (…) “devem ser julgadas pelo Judiciário e não pela Imprensa”.
Evidentemente, em seu manifesto, Dutra faz um balanço positivo das realizações petistas, destacando a inclusão social e a participação popular na elaboração do orçamento público (criação do PT de Porto Alegre), mas adverte que, para sair da vala comum dos partidos políticos, o PT precisa buscar novamente “o céu aberto da movimentação popular”, fugindo das “articulações serôdias, paralelas às instâncias partidárias”, que representam “um desperdício de energias”, especialmente agora que o PT está prestes a perder a Presidência da República no tapetão do Congresso.
Um dos fundadores do PT do Rio Grande do Sul, o líder bancário Olivio Dutra tornou-se um paradigma pois passou pelo Poder sem mudar seu modo de vida. Ele mora no mesmo apartamento do seu tempo de sindicalista e se desloca usando os meios de transporte coletivo. Primeiro político petista a subir ao poder no Rio Grande do Sul, ele inaugurou a série de quatro mandatos na prefeitura de Porto Alegre (e foi o primeiro governador petista no RS, também dirigido pelo advogado Tarso Genro). Os outros prefeitos petistas da capital gaúcha foram Raul Pont, Tarso Genro e José Verle. Além disso, foi do PT, no início de sua carreira política, o atual prefeito José Fortunati, que está no PDT, mas sob licença.
Vale lembrar que o petismo foi tão forte na capital gaúcha que a oposição se organizou numa coligação de 16 partidos e elegeu prefeito José Fogaça, do PMDB, destinatário de uma votação em que, pela primeira vez, se manifestou, contra o PT, o ódio que viria à tona, com alcance nacional, a partir de 2013, o ano do confronto aberto, nas ruas, entre “petralhas” e “coxinhas”. A eleição de 2004 em Porto Alegre antecipou em dez anos o repúdio visceral das elites e das classes médias ao ideário petista, voltado prioritariamente para os pobres, ainda que sem a ousadia de Robin Hood.
Agora já se pode ligar os fatos e extrair as lições pertinentes: se em 2004 em Porto Alegre a oposição se uniu para “banir o PT” e efetivamente conquistou o poder pelo voto, em Brasília o processo foi por etapas: nas eleições de 2014, a oposição esteve perto de derrotar o PT, mas perdeu e, inconformada, passou a jogar pesado, contando com a conivência de um PMDB crescentemente fisiológico e oportunista.
Para não ver o PT completar 16 anos no poder e, quem sabe, obter mais um mandato nas urnas nas eleições de 2018, com Lula lá outra vez, a oposição buscou o atalho do impeachment, usando várias acusações, desde supostas infrações à Lei de Responsabilidade Fiscal até a participação em falcatruas descobertas na Petrobras. Na realidade, o que se revelou com a Operação Lava Jato foi um segredo de polichinelo — a velha conexão entre contratos e doações de empresas a partidos políticos, o conhecido toma lá-dá cá.
PT, PMDB, PP, PTB, PR, PSDB, DEM…Das 32 siglas atuais, apenas meia dúzia está livre da lama – menos por convicção do que por falta de oportunidade de participar de alguma jogada dentro ou fora do Congresso, onde atuam não apenas os 300 parlamentares picaretas identificados pelo deputado constituinte Lula, mas verdadeiras gangues oriundas de todos os estados com a força dos votos populares.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“A luta não é pequena mas é por isso que vale a pena.”
Olivio Dutra no fecho do seu manifesto de fevereiro de 2015

