Agora é Copa do Mundo. Mas, entre um jogo e outro, as movimentações, conchavos e fofocas políticas vão continuar. A política capixaba resolveu homenagear Samuel Beckett e está assim como em “Esperando Godot”, a obra prima de Beckett do chamado Teatro do Absurdo. Já a política nacional, com efeitos sobre a política capixaba, está permeada e impregnada pelo fato de que nós, os brasileiros, resolvemos homenagear outra vez Nelson Rodrigues e, em tempos da “pátria de chuteiras”, voltamos a cultivar o nosso velho e surrado complexo de vira-latas. Tempos ciclotímicos e dissonantes. Com uma pequena pausa para torcer.
Em “Esperando Godot”, há um vácuo dramático. Nada acontece. Ninguém chega, ninguém parte. Godot nunca virá. Uma parábola sobre a solidão e incomunicabilidade entre os homens, fruto do ceticismo europeu após a Segunda Guerra. No final, Godot não vem. E surge então um diálogo final mais ou menos assim: “então, devemos partir?…sim, vamos…”. Alguma semelhança com o momento político capixaba? Paulo Hartung será ou não será candidato a governador?
Enquanto se exacerba esta dúvida Sheakspeariana até o final de junho, as fofocas política correm soltas. Apesar dos mais próximos a ele afirmarem com muita convicção que Paulo Hartung é candidato a governador, agora aparece também a versão de que ele examina com atenção a hipótese da candidatura ao Senado, para ajudar a fazer a fila andar e para “habilitar-se” a ser Ministro caso Aécio Neves venha a ganhar as eleições presidenciais. O “complicômetro” para a solução da dúvida é que outros que estiveram com ele dizem também que, inesperada e inusitadamente, ele estaria agindo também movido pelo fígado, o que nunca foi seu estilo e índole.
Tudo somado, não há quadro definido ainda, mas a candidatura a governador tem muito mais a ver com as circunstâncias de Hartung e com o seu momento. O que ele faria no Senado da República, do ponto de vista do seu projeto político, caso o governo nacional não venha a ser o governo de Aécio Neves? Como, como senador, ele manteria o seu grupo político agregado e mobilizado? Além do mais, ele já foi longe demais na articulação da sua candidatura à governadoria e algumas cordas já foram muito esticadas. Nada que não possa ser, no limite, ajustado com a ajuda do velho cola-tudo das louças quebradas. Ainda mais na política. Mas que algumas louças já foram quebradas, lá isto foram. Ao fim e ao cabo, só lá pelo dia 29 de junho, com a Convenção estadual do PMDB, a dúvida será sanada. No mercado político, há quem afirme que os convencionais do PMDB estariam ainda divididos entre a candidatura própria e a aliança com o PSB de Renato Casagrande, com vantagem para os que defendem a aliança com o PSB.
O problema da política capixaba neste momento histórico é que há um congestionamento de caciques. Como dar “mobilidade política” aos velhos e novos líderes? Está muito difícil segurar e represar os diversos projetos de “mobilidade política” pela via da política da unanimidade ou unidade. Seria, hoje, uma grande gambiarra política fadada a produzir caldo de cultura para a ingovernabilidade ali adiante. Não cabe mais todo mundo e todos os projetos no mesmo ônibus. O contraditório é latente e patente. Ainda mais tendo em vista as candidaturas presidenciais, que vão para uma disputa renhida, para dizer o de menos. Briga de foice no escuro.
É possível ainda conciliar os projetos políticos de Renato Casagrande (PSB) e Paulo Hartung (PMDB)? Aonde fica o senador Magno Malta (PR) com o seu caminhão de votos? Como deixar de considerar que o senador Ricardo Ferraço (PMDB) deverá ser candidato “natural” a governador em 2018? Como deixar de considerar a força estadual do PDT e o projeto político do seu presidente Sérgio Vidigal, que disputa com o atual prefeito Audifax Barcelos (PSB) a hegemonia política na Serra e que precisa voltar a ter mandato? E o PT, que desidratou-se no Espírito Santo mas que tem força ainda para buscar 15% a 20% dos votos no estado? Sem falar no PSDB, que precisa preservar o mandato de César Colnago e abrir espaço para Luiz Paulo Vellozo Lucas disputar o senado. Temos ainda a candidatura de Rose de Freitas (PMDB), que é legítima e tem força eleitoral, e a candidatura do novato Fabiano Contarato (PR), que pode ser a surpresa eleitoral destas eleições. É pouco? Sem falar que as clivagens da sociedade capixaba são hoje bem mais complexas para serem tratadas todas dentro de um ônibus só.
Assim, olhando sob o prisma da “mobilidade política” e das clivagens sociais, pode ser que venhamos a ter no final três candidaturas: o campo das alianças do governador Renato Casagrande; o campo das alianças do ex-governador Paulo Hartung; e o campo das alianças do PT. O que poderia levar as eleições para um segundo turno. Hoje, é isto que se pode descortinar. Se não se formarem estes três campos de alianças, pode ser que muita gente venha a ficar no sereno político-eleitoral. Ou não? Mas a resposta final só virá depois da Convenção de 29 de junho do PMDB.
Enquanto isto, as fofocas políticas correm soltas. Muitas centradas no fato de que neste ano de 2014 muitos políticos estariam se movendo pelo fígado. O que tornaria ainda mais difícil a costura de alianças. Por exemplo, o fígado de Sérgio Vidigal na sua disputa com Audifax Barcelos. O fígado de Luiz Paulo Vellozo Lucas na sua cruzada anti-PT e no seu supostamente represado ressentimento político em relação a Paulo Hartung. Sem falar, outra vez, no fígado de Paulo Hartung e do seu grupo político em relação ao PSB de Renato Casagrande.
Possibilidades para a “mobilidade política” e presença de ações com o fígado. Estes dois fatores – mobilidade e fígado – estariam permeando as centenas de conversas, promessas, táticas de dissuasão e mentiras políticas convencionais – sem contar as táticas para despistar os adversários (ou mesmo os parceiros) em curso. Difícil se imaginar o desfecho.
Permeando os conchavos políticos e as tendências eleitorais está também o retorno do complexo de vira-latas rodriguiano que voltou a assolar o Brasil e os brasileiros. E cujo corolário, neste momento político-eleitoral, tem sido uma inquietude e uma espécie de dor existencial que deságua na rejeição aos governantes e na tendência à alienação eleitoral. Uma alienação eleitoral, aliás, que se mantida em outubro poderá, paradoxalmente, acabar beneficiando os poderes incumbentes: Dilma Rousseff lá, Renato Casagrande cá. A vida como ela é. A política como ela é.

