As duas práticas citadas no título são talvez as atividades mais antigas do mundo. É o que diz um amigo de Ribeirão Preto. Ele se espantou não com os melindres da presidenta Dilma ao saber que a diplomacia americana a espiona, mas com a hipocrisia generalizada dos que se declaram indignados com o procedimento dos nossos amigos do Norte.
A única novidade dessa história é a “via digital”. Ela nos assegura que estamos submetidos ao Big Brother de George Orwell, não o do programa da Globo. No mais, continuam os grampos telefônicos e outros métodos de investigação e espionagem. A prostituição entra na história para adicionar a pimenta da corrupção. É assim que, unidos, governos e corporações trabalham para jamais serem vencidos.
Recordemos o que aconteceu em 1964. Foi não apenas com espionagem mas com conspiração pesada que os EUA ajudaram/estimularam empresários, políticos e militares brasileiros a derrubar o governo de João Goulart, vice-presidente eleito em 1960 junto com Jânio Quadros, que tomou um porre na solidão do Palácio do Planalto e renunciou ao maior cargo nacional.
Desde a Segunda Guerra Mundial os americanos exerciam influência mais ou menos explícita no Brasil. Não custa lembrar que seu maior aliado brasileiro foi o major Golbery do Couto e Silva, depois general, que implantou o Serviço Nacional de Informações, mantido pelo Exército, que atuava numa linha semelhante à da CIA e do FBI. A doutrina do SNI foi criada e mantida pela Escola Superior de Guerra, fundada em 1949, com apoio dos EUA. Tudo indica que está viva até hoje.
Desde essa época, há mais de 60 anos, o SNI e a CIA colaboravam entre si, trabalho que se intensificou a partir dos anos 1960. Era tal a dependência do Brasil aos EUA que em 1977, querendo mostrar independência, o general Geisel, presidente da República, assinou com a Alemanha um acordo de compra de tecnologia nuclear. Quatro décadas depois a Alemanha já fechou todas suas usinas nucleares enquanto o Brasil mantém operando a Usina Nuclear de Angra dos Reis, que representa menos de 2% da produção nacional de eletricidade. Já o risco de contaminação pela radiatividade é enorme.
A revelação da espionagem americana no Brasil tem uma vantagem: pode nos ajudar a buscar maior independência do que já temos. A dependência começa na importação de produtos, de tecnologia e de capitais. Agrava-se por meio da sujeição diplomática, que traduz a inferioridade psicológica construída por décadas de submissão colonial. A proclamação da independência em 1822 levou o Brasil da dependência de Portugal para a sujeição à Inglaterra, depois aos EUA. A independência só pode ser conquistada por meio da elevação do padrão educacional da população. É algo que demora décadas. Séculos.
Hoje somos pluridependentes (além da Alemanha, fazem parte dos nossos circulo mais estreito o Japão, a Espanha, a França, a Italia e a China), mas o peso dos EUA caiu no comércio brasileiro. Há dez anos, o comércio com os EUA representava 25% dos negócios do Brasil. Hoje, oscila entre 10 e 15%, graças aos governos petistas que intensificaram as relações com países das Américas, da África e da Ásia.
Mas não nos iludamos com isso. Pode ser que a queda da participação direta dos EUA seja compensada por empresas americanas instaladas na China, no Japão, na Alemanha, na Inglaterra e em outros países.
A globalização financeira e tecnológica transformou o capitalismo num bicho de sete cabeças – todas treinadas para falar o inglês de Nova York.
LEMBRETE DE OCASIÃO
Frango de granja não sabe ciscar

