Em agosto de 2014, o então candidato do PMDB ao governo do Espírito Santo afirmou ao ESTV segunda edição (TV Gazeta) que a cobrança de pedágio na Terceira Ponte era algo superado. “O pedágio da Terceira Ponte é uma página virada na história do Espírito Santo. Isso independente de quem for governador. Acho que agora compete ao Tribunal de Contas terminar a auditoria e apresentar aos capixabas o resultado dela”, afirmou o candidato Paulo Hartung.
Apesar da promessa de campanha, o motorista que cruzou os 3,3 Km da Terceira Ponte nesta segunda-feira (1) já pagou a nova tarifa, que elevou o pedágio de R$ 0,80 para R$ 0,95: um aumento de 18,75%. O pedágio da Rodovia do Sol, sob concessão do mesmo grupo, também foi reajustado em mais de 18%. A tarifa saltou de R$ 7,20 para R$ 8,50 — um dos quilômetros de asfalto mais caros do Brasil.
Hartung fez a promessa no calor da disputa. Queria mostrar que estava do lado do usuário da ponte, que julgava a cobrança abusiva. O então candidato temia ser ofuscado pelo adversário Renato Casagrande, que resolveu peitar os empresários do consórcio e determinar, em abril de 2014, a suspensão da cobrança de pedágio na ponte.
Casagrande tomou a decisão com base numa auditoria (parcial) do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que apontava que a Rodosol obtivera “lucro abusivo” de R$ 798 milhões.
Oito meses depois, é verdade, o consórcio que explora o sistema, graças a uma liminar da Justiça, voltaria a cobrar o pedágio na ponte. A Rodosol, porém, voltou a cobrar R$ 0,80, mesma tarifa de junho de 2013, quando a Justiça determinou a redução de R$ 1,90 para R$ 0,80. Já sob auditoria, a Justiça determinara à Rodosol que cobrasse a tarifa suficiente para cobrir os custos de manutenção dos serviços da ponte. À época, a Agência Reguladora de Saneamento Básico e Infraestrutura Viária do Espírito Santo (Arsi) fez os calculos e chegou ao valor de R$ 0,80.
O histórico do contrato firmado entre governo do Estado e Rodosol em 1998 sempre foi cercado de polêmicas, com direito a CPI na Assembleia e tudo e tudo mais. Entre as polêmicas mais recentes, a principal, que deflagrou a atual auditoria no contrato, questiona justamente se o valor obtido com a exploração do pedágio já não teria sido quitado e se seria o governo do Estado credor ao invés de devedor da concessionária. A suspeição suscitou a frase do então governador Renato Casagrande: “Alguém será indenizado: o Estado ou a empresa”.
Enquanto a judicialização do caso se arrastava (ainda se arrasta) e a auditoria final não saía (ainda não ficou pronta), na dúvida, Casagrande decidiu ficar do lado da população e suspender a cobrança do pedágio.
Essa movimentação de Casagrande forçou Hartung a afirmar que o pedágio era “página virada”. Ele, que durante seus dois mandatos sempre aquiesceu os pedidos de reajuste de tarifas da concessionária, só fez a promessa porque temia ficar com a fama de vilão e Casagrande com a de mocinho.
Mas passada a eleição e com a caneta na mão há mais de um ano, Hartung volta a se posicionar a favor da concessionária. Não houve empenho do governador para acelerar a conclusão da auditoria ou ao menos para exigir que a tarifa fosse mantida em R$ 0,80 até que a questão seja decidida pela Justiça. O episódio mostrou, mais uma vez, de que lado está o governador. Se não podia cumprir, não deveria ter prometido. Quem acreditou que o pedágio era “página virada”, deve ter se sentido enganado quando pagou a tarifa reajustada nesta segunda-feira.

