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Estreito de Ormuz e Beirute

Postura instável de Trump

Com o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, em retaliação aos Estados Unidos, cerca de 15 milhões de barris de petróleo diários deixaram de passar na região, com impactos no mercado mundial de petróleo e de abastecimento de diesel.  A disparada nos preços dos barris fez com que a Agência Internacional de Energia (AIE) fizesse a maior liberação de reservas estratégicas de petróleo da História, num total de 400 milhões de barris agora em março. Tal ação envolveu países da Europa, junto a países das Américas, da Ásia e da Oceania. Os 32 países-membros da AIE realizaram esta ação coordenada para reduzir a pressão no mercado de petróleo causada pelo bloqueio iraniano, visando garantir a estabilidade do mesmo.

A agência já afirmou que, em caso de necessidade, poderá fazer novas liberações. Na AIE, os países-membros devem manter estoques que equivalem a pelo menos 90 dias de suas importações líquidas de petróleo do ano anterior. Este mecanismo de reservas estratégicas serve exatamente no controle de volatilidade de preços e para garantia do abastecimento do mercado durante crises ou guerras, nos casos em que rotas comerciais importantes possam ser afetadas. Essas decisões pela liberação de barris de petróleo das reservas estratégicas sempre são coletivas, feitas pelos países-membros da AIE.

Não se sabe se esta medida agora será suficiente frente à dependência tanto da duração desta guerra como dos impactos provenientes do bloqueio do Estreito de Ormuz. Mesmo com a liberação de 400 milhões de barris de petróleo, essa é uma fração ínfima em comparação com os cerca de 15 milhões de barris diários que atravessam o estreito fechado pelo Irã. Tal liberação da AIE, mesmo sendo a maior da História, pode acabar em 26 dias, sem compensar a perda de oferta e com poucas opções de contenção de preços, tampouco no varejo.

A liberação de petróleo feita pela AIE é uma medida temporária, pois a solução para o problema somente depende de uma desescalada militar, embora as perspectivas de reabertura do Estreito de Ormuz ainda sejam incertas, com o Irã realizando minagem na região, com cerca de 6.000 minas navais, provocando mais um desdobramento para a crise, em que o controle do estreito pelo Irã reforça o caráter paliativo desta medida da AIE.

Mesmo com declarações intempestivas de Trump de que a guerra terminaria em breve, pois não havia mais alvos significativos no Irã,  e o anúncio da Saudi Aramco, a maior produtora de petróleo do mundo, de que aumentaria o fluxo de petróleo bruto por meio do oleoduto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, retomando 70% de seus embarques de petróleo, com o preço do barril de petróleo caindo a US$ 90 e as bolsas reagindo positivamente, houve logo o contraditório com as declarações de membros da administração trumpista, como o secretário de Defesa. Eles indicavam que a guerra continuaria, deixando claro que a declaração do presidente norte-americano era apenas uma tentativa de acalmar os mercados financeiros diante do receio de uma escalada militar duradoura no Oriente Médio.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, já tinha declarado que não havia nenhum plano da aliança militar de se envolver na guerra com o Irã, e também elogiado a ação norte-americana e israelense como importante para degradar a capacidade iraniana de expansão nuclear e de produção de mísseis balísticos. Mesmo com a recusa de entrar na guerra, países como Reino Unido, França e Alemanha afirmaram que auxiliarão os Estados Unidos no intuito de deter os ataques iranianos. Com o Reino Unido autorizando o uso de suas bases militares pelas forças norte-americanas no ataque a mísseis e locais de lançamento no Irã.

Mesmo com o apoio de grande parte da Europa, a guerra com o Irã ganhou uma oposição da Espanha que, através do primeiro-ministro Pedro Sánchez, se posicionou de modo a condenar o regime teocrático sem, no entanto, aprovar a intervenção militar, que foi considerada pelo governo espanhol como injustificável e contrária ao direito internacional. E com o aumento das ameaças a navios pelo Irã no Estreito de Ormuz, com alguns que já foram atacados recentemente na região, os apelos pela proteção dos navios mercantes pela União Europeia se intensificaram.

A Operação Aspides, que foi criada há dois anos para defesa do tráfego marítimo contra ataques do grupo Houthi do Iêmen, como uma missão naval de segurança da União Europeia, envolvendo a navegação comercial do Mar Vermelho, Mar Arábico, Golfo de Áden e áreas adjacentes, teve a sua prorrogação até fevereiro de 2027. Tal crise com o grupo Houthi atingiu o tráfego no Canal de Suez, um dos mais importantes do mundo no comércio internacional marítimo. E neste contexto da guerra no Irã, a França enviou dois navios de guerra para o reforço da operação, para o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, que são as portas de entrada para o Canal de Suez, elo do Mar Vermelho com o Mar Mediterrâneo.

Depois dessa posição da Otan, em que foi considerada a intervenção no Irã como crucial para a segurança da Europa, sem envolvimento da aliança militar diretamente, mas com apoio logístico e acesso para as operações em curso, o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, fez a convocação de uma reunião com os países do Conselho de Cooperação do Golfo e com os ministros das Relações Exteriores, ao passo que o bloco comercial e econômico visa a estabilização dos países vizinhos do Irã e de outros países vulneráveis da região, em que Kallas afirma que a UE tem o objetivo de conduzir esforços diplomáticos para a redução das tensões e impedir que o Irã adquira armas nucleares.

As negociações para a reabertura do Estreito de Ormuz envolvem duas frentes, uma entre os Estados Unidos e o Irã, e outra em que uma coalizão de 22 países, com o anúncio do chefe da Otan, estão se organizando na tentativa de reabertura do estreito, com o objetivo de conter a alta dos preços dos combustíveis. O Irã afirma ter controle total da região, em meio a um ultimato de Trump para a liberação do estreito em 48 horas sob ameaça de represália e depois recuo do presidente norte-americano.

Tal postura instável de Trump agravou a postura iraniana, com o anúncio do fechamento total da área e ataques a empresas norte-americanas caso haja bombardeio de suas usinas de energia. Diante do relato de tentativa de diálogo entre os Estados Unidos e o Irã para uma reabertura do Estreito de Ormuz para que em seguida seja possível um cessar-fogo, este foi desmentido pela imprensa iraniana como “fake news”. E Mark Rutte, secretário-geral da Otan, por outro lado, também não esclareceu como será feita essa reabertura do estreito na prática, pois há uma presença militar de outros países além dos Estados Unidos e do Irã, que pode representar um risco de escalada do conflito.

Diante dos problemas para a reabertura do Estreito de Ormuz, pelo lado de Israel ocorreram os ataques realizados sobre Beirute, no Líbano, em que se tem relatos de bombardeios recentes nos subúrbios do sul, com foco das Forças de Defesa israelenses em infraestruturas do Hezbollah, em que o país judeu expande seus ataques sobre a capital libanesa, no centro da cidade, levando pavor à população local e causando deslocamentos, com ações que fazem parte de uma intensificação das ofensivas militares de Israel na região, visando infraestruturas e centros de comando vinculados ao grupo terrorista xiita Hezbollah.

Esses bombardeios ocorrem em meio a uma escalada em que se tem relatos de lançamentos de foguetes do Hezbollah contra o norte de Israel, e com os israelenses também enfrentando ataques iranianos, em que o país judeu sofreu ataques sobre Tel Aviv e a região histórica de Jerusalém, ao passo que Beirute teve seu centro e subúrbios densamente povoados sendo atingidos. Beirute e todo o Líbano enfrentam agora uma crise humanitária, com deslocamento massivo dentro do país em torno de 1 milhão de pessoas, e com mais 130 mil que já fugiram para a Síria.

O sistema de saúde também enfrenta pressão com a morte de ao menos 34 profissionais da área por causa dos ataques militares. Ainda se calcula a morte de 1.350 civis, incluindo centenas de crianças, e ataques de Israel contra a infraestrutura libanesa com a destruição de alvos militares, além de pontes, vilas e estradas estratégicas, impondo dificuldades na ajuda humanitária e no deslocamento dos civis. Por fim, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou contra crimes de guerra que incluem ataques contra forças de manutenção da paz no sul libanês, depois da invasão de tanques israelenses a bases da organização. O governo de Israel justificou a ofensiva como necessária, no entanto, para o controle de posições estratégicas e como impedimento dos ataques do Hezbollah em sua fronteira norte.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: poesiaeconhecimento.blogspot.com

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