Praticamente dez em cada dez pesquisas de opinião trazem sempre a saúde como o principal problema do Brasil. O quadro piorou depois do crescimento da chamada nova classe média, que resultou em maior pressão por serviços de saúde. Invariavelmente, recomenda-se a dotação de mais verbas para o setor cumprir o seu papel constitucional de universalização via SUS, provendo a população com serviços de saúde de qualidade. Mas a fórmula do “mais verbas” é simplória. É uma panaceia que desvia o foco da questão.
Hoje, sabe-se com mais clareza que os reais gargalos da saúde no Brasil estão ligados à ineficiência da gestão. Colocar mais verbas numa estrutura ineficaz é jogar dinheiro fora. Algumas experiências de gestão bem-sucedidas no país, que resultam em aumento da produtividade e melhoria da qualidade, apontam para o caminho da necessidade de foco na gestão. É preciso rever a própria estrutura da prestação dos serviços de saúde – valorizando mais a regionalização, a hierarquização e os pesos relativos do setor público e da iniciativa privada -, bem como rever as ferramentas de gestão – valorizando mais a utilização de tecnologia da informação e da comunicação.
Olhando para experiências internacionais de vários países, estudos comparativos realizados recentemente mostram que o país gasta muito, em termos comparativos e relativos, e entrega pouco. Esta equação precisa ser rebalanceada com um misto de competência, criatividade, audácia e coragem.
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Outro dia, o jornalista José Casado (O Globo) mostrou que o exemplo do Rio de Janeiro ilustra como a saúde virou uma bilionária caixa-preta. Ele analisou os gastos e a eficiência de nove unidades de saúde pública mantidas pelo governo federal no Rio de Janeiro: seis hospitais e três institutos.
Todos juntos, gastaram R$ 50,6 mil em cada internação. Em contraste, mostra Casado, a despesa média por paciente foi de R$ 6 mil nos três hospitais municipais do Rio. Diz ele: “ou seja, internações nas instituições federais custaram oito vezes mais que nos três principais hospitais municipais do Rio e da Baixada. A despesa cresce, mas o padrão de eficiência declina. Houve uma drástica redução do número de internações nos últimos seis anos” ( “Caixa-preta na Saúde” , O Globo, 19.05.2015).
No Rio, segue Casado, a rede federal recebeu R$ 3,4 bilhões em 2014. Este montante, diz, é equivalente ao que o governo estadual gastou com nada menos que 60 hospitais.
Casado conclui: “a rarefeita transparência na gestão ajuda a reforçar a percepção de anarquia gerencial no Sistema Único de Saúde, uma constante nas pesquisas de opinião dos últimos seis anos”. Ou seja, pode-se dizer: é a gestão, estúpido! …
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Recentemente, um livro seminal (“A quarta revolução – a corrida global para reinventar o Estado”, de John Micklethwait e Adrian Wooldridge) investigou inúmeras experiências positivas de gestão pública em vários setores e em vários países.
Na saúde, eles mostraram alguns exemplos em vários países, em especial na Índia, no Reino Unido, nos Estados Unidos e na Suécia, por exemplo. Na Índia, o médico Devy Shetty construiu uma cadeia de hospitais, repensando a assistência médica de uma das formas mais inovadoras do mundo…” sua maior proeza…foi ter aplicado os princípios gerenciais de Henry Ford à assistência médica. A nau capitânia de Shetty, o Hospital Narayana Hrudayalaya, em Bangalore, capital tecnológica da índia, tem mil leitos, em comparação com 160 leitos, em média, nos hospitais do coração dos Estados Unidos. Shetty e sua equipe de mais de quarenta cardiologistas executam cerca de seiscentas operações por semana, em verdadeira linha de produção cirúrgica: nenhum hospital ocidental chega perto disso…Shetty sustenta que escala e especialização podem contribuir radicalmente para a redução de custos e para a melhoria da qualidade…” ( “A quarta revolução” , p. 194 ).
Em Estocolmo, o Hospital St. Göran´s é outro excelente exemplo da aplicação de novas ideias à assistência médica (a parte mais importante do chamado Estado de bem-estar social). O St. Göran está na vanguarda de uma ampla revolução. A assistência médica da Suécia é hoje talvez a mais eficiente do mundo desenvolvido: “a duração média da internação em hospitais suecos é de 4,5 dias, em comparação com 5,2 dias na França e 7,5 dias na Alemanha. Esta eficiência diminui a necessidade de hospitais. A Suécia tem 2,8 leitos hospitalares para cada mil cidadãos, em comparação com 6,6 na França e 8,2 na Alemanha…” ( p. 168).
Muitos países emergentes observam estas e outras experiências, como a experiência do chamado NHS , o sistema de saúde britânico. São modelos e referências que podem ser aplicados à realidade brasileira, por exemplo, fazendo-se as necessárias adaptações. Modelos e referências de gestão voltada para a qualidade e a produtividade na saúde. O que requer, outra vez, ênfase em boas práticas de gestão, mais do que no aumento dos gastos.
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Reportagem recente em Exame (27/05/2015) mostra que o Brasil vai gastar em 2015 mais de 10% do PIB com saúde. Os gastos mostram uma tendência regular de alta ao longo dos anos. O Brasil é um dos campeões da chamada inflação médica.
Diante do quadro de inflação médica e baixa qualidade dos serviços de saúde, a EXAME sistematizou sugestões. São basicamente quatro sugestões:
(1) Mensurar e divulgar os resultados dos tratamento, tornando os hospitais mais transparentes ( dados como taxas de mortalidade, infecção, complicação e reinternação de pacientes) ;
(2) Mudar o modelo de remuneração dos hospitais ( o modelo atual estimula o uso exagerado de materiais e medicamentos, pois as operadoras pagam os hospitais por insumo usado num tratamento);
(3) Pagar mais aos médicos, permitindo que os médicos dediquem mais tempo e atenção aos pacientes; e
(4) Reverter a cultural do especialista – nos sistemas de saúde mais eficientes, como os de Reino Unido, Holanda e Canadá, os pacientes recorrem ao médico de família antes de ir a um neurologista investigar uma simples dor de cabeça …( Exame pp. 38 e 39 ).
(5) Diante da quase iminência de pré-falência na prestação dos serviços de saúde, como mostram regularmente os noticiários diários, o Brasil precisa repensar o modelo de gestão da saúde, como já fez lá atrás, quando foi criado o SUS. Está na hora de rever, remodelar e restaurar o sistema de saúde. Com ênfase na gestão, na produtividade, na qualidade, na regionalização, na hierarquização do atendimento.
No Congresso Nacional, a chamada “bancada da saúde” precisa de maior ativismo e ênfase na mudança do sistema. Nos estados, os governadores precisam – como fez agora o governador Paulo Hartung no Espírito Santo – dar ênfase à gestão, designando gestores para liderar e dirigir o sistema estadual. Ao mesmo tempo, precisam cuidar da regionalização dos hospitais e da hierarquização do atendimento – com mais utilização de prontos socorros , PAs , Unidades Básicas e UPAs, dentre outras medidas, em cooperação com os governos locais. Sem falar na maior utilização das Organizações Sociais para a gestão dos hospitais, na trilha de parcerias público-privadas.